jan 19 2015

A tripulação do Högvind, pt. IV

Talus trocou o pé de apoio; estava ferido, mas não vencido, e não desistiria da luta tão facilmente. A armadura negra chiou quando tocou a poça d’água, erguendo uma pequena nuvem de vapor branco. Mas conforme a água subia, a armadura esfriava e cessava o chiar. Logo perceberam – tanto ele quanto Robin – que a maré subia rapidamente envolvendo os destroços das choupanas e carregando para o mar os corpos dos defensores da praia.

Robin tentava equilibrar-se sobre uma viga que balançava sob efeito do bater ritmado das ondas. A água era fria, salgada e sem espuma, fluindo praia acima como se tomada de uma força magnética irresistível. Não havia ruído de quebrar de ondas, somente o serpentear do mar colina acima, envolvendo areia, gramado e as construções. Era possível mesmo ver a cabeça-de-dragão do Högvind despontando da névoa matinal.

Logo mastro e cascos se fizeram aparentes, o sol da manhã refletindo contra os elmos dos homens ainda protegidos pela amurada. A vela estava recolhida e os remos levantados, mas o longo barco subia a maré com a mesma força sinistra que erguia a maré. O vento soprava gentil, agitando os castanhos da escudeira e apagando as centelhas ainda presentes da fúria do feiticeiro. Ambos pasmos, ele com água já ao peito, e ela apoiada sobre o que restou de um casebre, não sabem como continua o embate.

No alto da proa, apoiados na carranca-de-dragão, três figuras eram clamanete visíveis. A primeira, uma garota pequena e magra, segurava um pequeno pandeiro e batia-o ritmadamente contra a coxa. Trajava um vestido simples de malha azul, os cabelos prateados em duas longas tranças a cair sobre os ombros, repletas de pequenos ramos e flores brancas entrelaçadas. Atrás dela um homem de cabelos negros e sem barba, enlaça sua cintura com uma das mãos enquanto segurava uma criança com a outra. Veste uma calça larga e surrada, amarrada por uma tira de tecido amarelado, e um colete de couro a cobrir o peito. Amarrado ao colete, outras tantas pequenas tiras de tecido, trançadas e dobradas, formando um padrão de listras coloridas.

A brisa parecia dançar em volta da pequena família, brincando com seus cabelos, com os pequenos ramos e as tiras de tecido amarradas. Estes são Llanw e Braese, a força motriz e trunfo do Högvind, seres feéricos de uma terra distante com estranho poder sobre os elementos. A criança ainda não tem nome pois não escolheu um para si, e eles a chamam somente de “pequena”. Ela brinca, tentando agarrar o pandeiro dos dedos da mãe.

É difícil saber o que os motiva, certamente não a mesma paixão que Robin e Wilfred, ou a fúria de Talus. Os sidhe trazem um mistério em seus grandes olhos azul-turqueza e na estranha música que entoam. Acompanham e impulsionam o longo barco, fazendo-o cingir as águas com extrema segurança e agilidade. Até o dia talvez, em que por capricho ou pela razão, o destino do Högvind já não lhes interesse.

Mas enquanto isso, Llanw deixa a criança nos braços da mãe, e mergulha próximo ao feiticeiro. Em um instante retorna a superfície, alcança a amurada e se iça para cima. Água escorre pelos seus cabelos e pelas roupas, grudando-lhe a calça às pernas, o colete ao peito. Traz consigo na mão direita, uma estranha orbe de cor azulada, coberta por um padrão de cores líquidas e segura por um aro de metal dourado.


jan 12 2015

A tripulação do Högvind, pt. III

O cavaleiro ainda estava caído quando Robin o alcançou. De joelhos ao lado dele ela já não gritava, ao invés disso soluçava baixinho procurando encontrar o que dizer. As lágrimas escorriam pela face coberta de fuligem, criando dois caminhos luminosos em suas bochechas. Os olhos de ambos se encontraram e as mãos dela foram tomadas entre as manoplas dele. Você sabe as palavras – ele disse – é só repetir.

Removendo as luvas de couro, ela sentiu o pedaço de lâmina partido sob a falha na armadura. Conteve o soluço e esfregou os olhos contra o manto de lã encardida em seus ombros. Respirou fundo e alcançou a farpa metálica entre os dedos. Entoava as palavras que lhe haviam sido ensinadas há muito tempo, antes de conhecer Wilfred: voluntas quidem cordis mei. As palavras que outroram foram seu júbilo e sua queda, agora traziam uma esperança para os tendões partidos de seu companheiro.

Foi necessária alguma força para retirar o que restava da faca, mas Robin o fez com precisão. Ergueu a lâmina e a atirou ao longe, surpreendentemente perto de onde havia deixado sua própria espada. Via a fumaça se dissipar em padrões espiralados diversos, e corpos carbonizados por todos os lados. A fumaça também se erguia dos corpos, e diversas manchas negras e sibilantes se espalhavam a volta deles. Engasgou por um breve momento, as lágrimas novamente se insinuando no olhar.

Logo Wilfred tentava se levantar, usando somente o braço bom. Os cachos castanhos da garota envolveram o ombro direito dele enquanto ela o erguia, os olhos e os lábios dela próximos aos seus. Para ele, a jovem parecia ferida, confiança e devoção traídas expressas num olhar de angústia. Se havia algo que não envelheceu com Wilfred, foi sua habilidade em sondar as pessoas, especialmente àquelas próximas.

Ao longe vislumbrama a armadura negra de Talus em meio aos escombros. Erguia algo do chão, observando os padrões de luz que se formavam enquanto a cortina de fumaça se abrandava. Wilfred percebeu o olhar de Robin e temeu. Soube que não teria seu apoio pelos próximos momentos, que os sentimentos dela explodiriam em fogo e fúria comparáveis aos iniciados pelo feiticeiro. Percebeu tudo isso antes que a mão dela alçasse a lança fincada ao chão.

A lança voou certeira até a manopla de Talus, e mesmo sem cravar-se na armadura provocou um estalo metálico e um rugido de dor. O artefato que ele segurava rolou pelo chão de volta aos escombros, enquanto amparava o braço com a mão intacta. O elmo se ergueu e os olhos flamejantes encaravam a jovem escudeira que caminhava em sua direção sem medo, repleta de orgulho e vingança.

Ela notou que a lã em seus ombros fumegava e pequenas centelhas despertavam em meio aos pontos. Desprendeu o manto e deixou-o ir ao chão enquanto apanhava novamente sua espada. Saltou a viga carbonizada de um casebre que veio abaixo e em um instante estava frente a frente com seu oponente. Talus não portava armas, mas suas manoplas negras irradiavam um brilho sobrenatural e chiavam insistentemente.

Robin deu um passo para a direita e ergueu a espada, mas assim que o feiticeiro estendeu o braço para apará-la, ela fintou e lançou a espada contra a perna mais próxima. A lâmina se chocou ao ferro negro da armadura, provocando outro estalo, um sulco no metal e o recuar do feiticeiro. Não se importa com ninguém além de você mesmo – rugia ela – não sinto mais pena de você, da suas marcas ou da sua dor!


dez 12 2014

A tripulação do Högvind, pt. II

Wilfred dispensava os oponentes rapidamente, um a um. Avançava para o meio da turba, onde o comandante deles permanece, enquanto Robin lhe fornecia a cobertura que podia. Apesar do número de caídos aumentar, parecia haver ainda tantos que o esforço era demasiado grande para a dupla. Suor escorriam-lhe as frontes e os músculos das pernas já latejavam.

O cavaleiro egueu o escudo, lançando um dos atacantes para o lado enquanto a espada cravou-se num pescoço já ao chão. Ouviu Robin gritar algo atrás de si, mas não conseguia compreender as palavras. Sentiu então uma nova força agarrando sua capa e puxando-o para baixo. Só então percebeu que os caídos não permaneciam no chão, mas levantavam-se com seus ferimentos ainda a mostra.

Foi sobrepujado pela turba que arranhava, agarrava e chutava. Robin ainda gritava. Uma faca meio cega procurava as falhas na armadura, enquanto seu portador xingava e babava sobre o cavaleiro. Cheirava a suor, conhaque e fúria. Wilfred voltou-se e conseguiu acertar-lhe os dentes com o punho da espada. Pareceu não sentir.

A faca alojou-se sob a ombreira e provocou um olhar de triunfo. O homem começou a engasgar e vomitou sobre o cavaleiro uma espécie de bile negra que fedia a enxofre e vinagre. Seus olhos ficaram vermelhos e bolhas surgiram no peito e pescoço, sob a pele. Seu sorriso transformou-se numa carranca enquanto o vapor escapava-lhe dos poros.

E então as chamas irromperam, consumindo-o de dentro para fora. A carne soltou-se em pedaços fumegantes enquanto a pele esfarelava-se como papel. O cheiro agora era como churrasco num abatedouro. Robin ainda gritava enquanto todos os oponentes eram consumidos pelas chamas internas.

Fumaça negra mesclava-se à névoa branca quando Talus surgiu. As peças negras de sua armadura ocultavam praticamente todo o corpo, cobertas de fuligem. Os olhos brilhavam flamejantes dentro do elmo, ameaçadores, enquanto novas chamas brotavam dos atacantes, assim como de seus casebres. Alguns fugiam, consumindo-se lentamente até despencarem adiante, em meio a cortina de fumaça.

Outrora também Talus havia sido um escudeiro, mas hoje seguia seu próprio caminho. Em seu passado uniu sobre a mesma mesa espada, magia e rancor e deu origem a um ser temido, mesmo entre os companheiros do Högvind. O temperamento irascível aliado as chamas poderiam dar cabo do barco em questão de minutos. Não é motivado pela honra, mas pelo ódio que o consome.


dez 5 2014

A tripulação do Högvind, pt. I

O fundo do barco raspou contra as pedras, fazendo um ruído seco conforme rasgava um sulco para encalhar na praia. O primeiro par de botas e grevas de metal surgiu num estrondo metálico, arrastando ainda mais pedras conforme o cavaleiro tropeçava e se apoiava no escudo para não cair. O segundo par veio logo em seguida, um pouco mais gracioso e confiante, com o tilintar sonoro da cota de malha.

Wilfred e Robin se entreolharam no nevoeiro denso que cobria a costa. Ela ergueu uma sombrancelha num sinal de curiosidade e questionamento, instigando o cavaleiro a um dar de ombros despreocupado. Ele voltou-se para onde deveria estar a vila, ouvindo o som distante do ranger de madeira. Um pássaro desconhecido cingiu o ar a volta deles, e Robin desejou saber se o presságio era favorável ou não. Temia o que a manhã traria.

A garota trazia um manto comprido sobre os ombros, nos quais lhe caíam também longas madeixas acastanhadas. Uma túnica de lã azul ocultava os elos da malha, mas permitia sobresair-se as luvas de couro, cotoveleiras e perneiras de metal. Seus lábios estavam contraídos num formato incomum para seu comportamento, tornando um pouco dos incisivos evidentes.

Observava enquanto o cavaleiro se aventurava na névoa baixa, seu manto branco e surrado ocultando a armadura de placas, mais vistosa que a sua própria. Os cabelos loiros eram amarrados num rabo-de-cavalo fora alguns fios que soltaram-se no movimento súbito de saltar sobre a amurada. Há tempos já foram rajados por fios vermelhos, mas hoje Wilfred os traz prateados a emoldurarem as têmporas.

Robin o acompanhava lentamente, e somente o raspar metálico de seus passos é perceptível nos seixos da praia. Até que o grito de guerra soasse. Houve o bater de um tambor, um rugido gutural e o som de passos rápidos e desequilibrados em direção deles. O primeiro vulto surgiu da névoa dezenas de metros a frente, trôpego e nu, mas portando uma lança ou uma haste semelhante. Outros vinham a seguir.

Os dedos da garota tremeram, mas ela controlou-se o suficiente para buscar o cabo da espada, que retirou da bainha com agilidade obtida no treinamento diário. Ergueu a espada para o companheiro que recusou com um novo dar de ombros. Você não é mais uma escudeira – disse – faça as honras. E desembainhando sua própria espada, deu um passo em direção a ela.

Os lábios se tocaram levemente, trazendo o rubror, o êxtase e uma coragem renovada. Ela sorriu da maneira que ele a conhecera, e apoiada pelas palavras e gestos dele, receberam junto a investida dos atacantes. Os passos eram rápidos e precisos, quase uma dança, e as espadas subiam e desciam como lâminas de um arado. Lutavam pela liberdade, pela justiça, e sobretudo pelo sentimento que compartilhavam.


set 2 2013

Vítimas da Inocência

Há uma sensação difícil de explicar, na percepção da passagem de tempo. Ela me é ocasionada ao perceber que a Inocência já não é a mesma. Não que tenha perdido a graça em seu sorriso, ou a familiaridade de seu olhar. Mas de certo modo ela amadureceu. Tornou-se senhora de seu destino como outras princesas outrora.

Há uma certeza em Ivória, de que as princesas se tornam damas, que galgam seus medos e os superam. E quando você menos espera é salvo – ou destruído – por sua determinação e beleza. Isto só me fortalece a sensação, ao perceber que hoje a Inocência também destrói os corações incautos, dos bravos e destemidos.

Como também eu fui destruído um dia…


jul 25 2012

O Monstro, pt. II

– Crônicas de Ethrü, em continuidade ao Monstro

Há certas noites que ainda penso no monstro. Não é um pesadelo, nem nada do gênero; eu só estou deitado no meu catre e deixo meus pensamentos vagarem pelas memórias da minha infância.

E é então que eu vislumbro aqueles olhos selvagens na escuridão. O verde doentio se volta rapidamente a mim, e sua respiração se condensa branca no ar. E eu corro. Mas ele me segue além de seu refúgio, e nos meus pensamentos finalmente me alcança.

Tomado de assalto, caio e rolo sobre a relva, ferindo meus joelhos nas rochas. Eu olho em volta e ele não está mais lá, mas ainda sinto sua respiração sobre mim, uma sensação como se estivesse a me observar de algum lugar oculto.

Mas essa é uma lembrança forjada. Onde quer que esteja, em seu refúgio sob a terra, o monstro permanece aquietado ou em torpor. E eu torço para que ele continue lá, ao menos por mais um dia…


jun 17 2011

Congelado, parte 2

Eu já não podia sentir meus dedos. Tato, paladar e olfato foram tragados pelo frio e misteriosamente meus olhos e ouvidos foram parcialmente poupados. O açoitar do vento tornou-se uma canção constante e até onde minha vista alcança somente em um cinza difuso o mundo se manifestava.

Havia sacrificado tudo isso por ela e mesmo minha alma jazia agora encarcerada sob um cristal de gelo. Correria para ela se pudesse, para o calor de seus braços se vontade ainda houvesse. Mas minhas forças há muito haviam sido tragadas pelos fiordes, seu torpor e seus açoites.

– Diga-lhe que congelei – as palavras ainda ressoavam em minha mente quando meu fiel Leifr veio a mim. Prostrou-se cautelosamente a meia jarda das ameias, observando o continente sul encoberto pelas névoas.

– A rainha não suportará, meu senhor – manifestou-se pesaroso – mas não há o que se possa fazer, nada sob a rocha-de-gelo. Estendeu a mão para meu ombro, mas ela deteu-se fosca e difusa centímetros adiante, na superfície cristalina que me mantinha. – Um dia talvez, se o inverno partir, terá sua própria voz para respondê-la.


– continuidade ao Congelado, e atendendo a pedidos da Amanda e da Patrícia

 


abr 26 2011

Congelado

Fui enviado ao sul, para assegurar os bastiões e as passagens nas fronteiras mais longínquas. Há muito tempo candidatei-me a este serviço fui honrado com o título que o acompanha: senhor do Fiorde Branco, defensor das Escarpas do Açoite e protetor da Rainha de Vidro.

E foi lá que o emissário me encontrou, recostado às ameias negras da última fortaleza sobre o mar cinzento. Estava fatigado e isto se tornava evidente na quantidade de vapor que exalava de seu hálito. Trazia em sua mão um envelope com o selo de vossa majestade

Quebrou o selo diante de mim e, aos gritos apresentou-me o conteúdo da epístola. Esperou pacientemente que eu me pronunciasse. O vento uivava ruidosamente e permiti que, afora isto, o silêncio reinasse entre nós. Conforme entorpecia-nos os sentidos, aumentava sua urgência.

– Meu senhor, vossa rainha exige uma resposta a sua convocação – finalizou.

– Diga-lhe que congelei – desabafei. Velhas mentiras tornaram-se verdades e minha disposição foi sepultada sob uma muralha de gelo. Sei que ela não me perdoará, mas diga-lhe que permanecerei no sul.

Talvez eu o tenha dito baixo demais, ou talvez tenha congelado realmente pois ele permaneceu ainda alguns minutos incrédulo a esperar uma resposta. Por fim desistiu e partiu, deixando-me só ainda sobre as ameias do modo que me encontrou.


– inspirado na música Frozen, do Within Temptation


fev 14 2011

Monstro Liberto

– Crônicas de Ethrü

Cacei-o por anos a fio; rastreei suas marcas e segui sua trilha de devastação até que um dia, sem menor aviso desapareceu. Não haviam mais pegadas pelos campos ou trilhas de sangue entre as árvores. Desapareceram os temores noturnos e as lendas deixaram de ser contadas a sussurros.

Soube então que outro caçador cruzara os campos de caça; empunhava a lança dos nórdicos e cavalgava um garanhão de pelagem branca; seus cabelos cinzentos eram emoldurados por asas de gaivotas. Uma mulher, uma valquíria. Levara o lobo dali e consigo minha liberdade presa ao peito do monstro.

Rumei para sua fortaleza e durante a noite tomei de assalto. Despindo-me da armadura e escudo saltei por sobre a muralha para o pátio interno. De imediato reconheci o ronco trovejante da criatura. Pé sobre pé rumei para ela com espada em punho movido pela ganância.

O prêmio deveria ser meu – pensei – e amaldiçoei a valquíria por tê-o tomado. Dividiria a caça com Jarl que depositara a maldição em seu peito, mas reclamaria para mim sua morte e faria de suas presas meu espólio.

Mas o monstro despertou com facilidade, como da vez anterior. A mesma astúcia e maleficência se denunciavam no rubor de seu olhar. Ergueu-se rapidamente mas foi detido por um pedaço de fita preso em seu pescoço. Ele testou o grilhão como deveria ter feito tantas vezes antes. Havia marcas de mordida na seda, mas nada fora capaz de destruí-la.

O braço esquerdo reclamou na presença da criatura e tive que consolar a espada em minha mão direita. Subi a lâmina sobre o tecido, rompendo-lhe as fibras tal qual rompia o destino traçado pelas Nornas. Por um momento pude ouvir as montanhas ruindo tão alto quanto o passo de um gato. Fazia parte de uma magia antiga, de deuses e anões e temi.

Temia pela fera agora liberta, que rapidamente saltou por sobre o portão e mais uma vez estava solta pelos campos. Distribuiria, sem distinção, fúria e selvageria sobre a terra, fazendo novos órfãos e viúvas. Mas apesar do meu pecado, teria de volta a esperança de liberdade, ou de morte.

– com base no Monstro Agrilhoado


ago 9 2006

O Monstro Agrilhoado

– Crônicas de Ethrü

Há três dias percorríamos os campos do norte em busca dos sinais do lobo, quando finalmente o encurralamos numa clareira. Parecia cansado ou tinha sono, Jarl não sabia ao certo, mas foi o primeiro a vê-lo, a grande massa de pêlos cinzentos caída por sobre a relva. Nos aproximamos cautelosos, mas não o suficiente, pois o monstro nos farejou. Ergueu-se de um salto exibindo suas grandes presas.
A astúcia em seus olhos denunciou que nos esperava. Ele confiava demais em sua fúria. Ele rugia ameaçadoramente e tentava nos amedrontar. Confiei minhas costas a Jarl e saquei a espada a tempo de tê-lo saltando sobre mim. O golpe foi rápido, ligeiro demais para que meu amigo disparasse uma flecha. A bocarra do monstro já envolvia meu braço esquerdo enquanto eu inutilmente tentava estoca-lhe a espada no pescoço. Arranhei-o algumas vezes, mas isto só parecia incitá-lo ainda mais.
E então, num movimento súbito ergui-o sobre mim e foi então que a flecha o acertou. Jarl disparou precisamente em seu peito ferindo-lhe no coração. Mas a criatura não caiu, ao contrário, ergueu-se novamente arfante e voltando-se para o lado contrário disparou por entre as árvores.
Ergui-me para acompanhá-lo, mas o elfo deteu-me pelo braço.
– Sete anos, Glenn; por sete anos aquela seta irá torturá-lo em seu peito. E ao final do sétimo ano ele morrerá, se não houver um toque suave o suficiente para arrancá-la dali.
Eu realmente odiava profecias ou maldições, mas especialmente as élficas, pois vinham carregada de verdade além do próprio entendimento. Então eu esperaria, por sete anos, pela morte ou pela liberdade

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