maio 28 2006

Mais um dia

– das crônicas de Ethrü
Abri lentamente a porta esperando pelo pior, mas o salão não poderia apresentar maior tranqüilidade; havia trepadeiras e ramos por todos os campos, esgueirando-se, escalando a rocha fria do cômodo. A luz incidia de uma abertura no topo pouco acima do trono e resplandecia através do seu sorriso cúmplice. Não era silencioso, ao contrário, pássaros e esquilos corriam por todo lugar e pequenos insetos voavam junto aos raios solares exibindo seus tons metálicos.
Fugi de seu olhar, pois contavam as lendas que ela poderia hipnotizá-lo, sufocá-lo ou mesmo fazer emergir, do íntimo da alma os piores pesadelos. Não pedi licença, não fui gentil, simplesmente disse ao aproximar-me de seus pés:
– Por que eu?
E como ela não respondia, ergui meus olhos. E os dela eram belíssimos, de um azul profundo demonstravam compaixão e misericórdia, que pouco condiziam com sua juventude. Seus cabelos castanhos caíam em cascatas suaves sobre o vestido branco bordado com pequeninas flores azuis de ramos verdes. E se sorriso me inspirava desejo e calor. Mas me contive, e perguntei:
– O que quer de mim?
– Ora – começou ela – eu quero seu bem, meu anjo. Quero que você viva, que você lute mais um pouco. Quero que você tenha uma razão para ficar um pouco mais.
Somente então eu reparei suas mãos, cobertas de cinza e fuligem do qual brotavam pequenas e delicadas unhas pintadas num esmalte vermelho-sangue.
– Se você veio em busca de paz – completou – você não encontrará aqui. Procure num outro lugar. Pois sou a Vida; e só posso te oferecer compaixão e cinzas

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jul 25 2005

O Monstro

– Crônicas de Ethrü

Lá debaixo daquele monte, nas cavernas que se extendem pelas entranhas da terra vive um monstro. Eu o vi certa vez, então vocês podem acreditar. Ele era alto, e naquela época isso queria dizer muito mais alto do que eu. Não havia homem que pudesse medir forças com ele; não em seu próprio território.

Eu o encontrei lá, no fundo de uma das cavernas, sentado e com a face enterrada nas mãos. Era magro e possuía as pernas compridas, a pele áspera era marrom e os cabelos lhe caíam compridos e desgrenhados por sobre os ombos. Mas foi sua face o que mais me aterrorizou: possuía uma testa larga e comprida, o nariz grande e torto, e os grandes olhos verdes que faiscavam na escuridão.

Ele se ergueu num salto e correu atrás de mim; mas naquela época eu era pequeno e ágil e ganhei a superfície antes dele. Mal sabia e que ele correria ainda mais rápido fora da opressão das cavernas. Eu podia sentí-lo em meus calcanhares, seu hálito horrível sobre mim; mas então desapareceu.

Ainda hoje não encontro explicações para o fato, mas sobre a colina lancei um último olhar para os montes e pude vê-lo, de pé sobre uma rocha, me fitando solitário

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jul 8 2005

Duelo

– um conto de Glenn d’Leene

Então Glenn tomou em suas mãos a espada e o escudo; já havia vestido a longa malha que lhe chegava até os joelhos e uma calça de couro reforçado. Sobre tudo isto um peitoral e ombreiras de aço e uma longa túnica negra, a qual haviam bordado, ás pressas, um dragão prateado. O fio era metálico e reluzente, e espelhou os primeiros raios que escaparam pela fresta da porta que se abria. Era manhã de domingo e o sol já se erguia alto.
Deu um passo a frente e foi ofuscado pela luz vinda de fora. O grito da multidão lhe chegava aos ouvidos como o trovejar de uma tormenta, e causava uma confusão semelhante. Aos poucos tornaram-se escuras as muralhas da arena, as árvores por sobre o muro, o balcão onde se posicionava a corte e enfim, seu oponente. Seus contornos tornavam-se pouco a pouco mais distintos, a túnica leve sobre uma malha semelhante a própria cota de Glenn, a espada estendida. Se não fosse pelo cabelo jogado sobre os olhos e pelo porte um pouco mais baixo, teria pensado ser um reflexo seu.
Mas não era. Hoje Usko era seu oponente; era forte e ágil e além disto destemido, sobretudo era jovem. Glenn já não brandia a espada a anos e estavam despontando em seus cabelos os primeiros cachos acinzentados. Ainda assim ele não temeu; aproximou-se de seu oponente, e com firme resolução estendeu-lhe; não a espada, mas a mão aberta

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jan 9 2005

Sobre os Falcões do Crepúsculo

A tarde já se vai adiantada, como que derramando sobre a tela celeste todas as cores quentes, do amarelo ao vermelho, o róseo ao laranja. Sobre esta mancha multicolorida uma pequena forma negra desliza suavemente, inebriada na atmosfera do poente.
O falcão do crepúsculo é um mensageiro ágil e audaz, de olhos vivos e reflexos espantosos. Pode voar durante todo um dia, do nascer ao pôr-do-sol sem descanso maior do que planar ao sabor do vento.
Seu peito branco-acinzentado é largo, mesmo para um pássaro de porte tão pequeno, e seu nome provém da coloração castanho-avermelhada das penas de suas costas e cauda. O pescoço é cinzento e umas poucas penas no superior da cabeça apresentam uma tonalidade quase azulada.
É sobre as maiores cidades que, enquanto as lamparinas são acesas, os falcões retornam para casa, descrevendo uma dança silenciosa e rítmica sobre os telhados e praças; pousam sobre os braços de seus adestradores, trazendo notícias dos vales além dos montes distantes.
Na maior parte das vezes as notícias se resumem a pequenos acontecimentos, detalhes a respeito dos vilarejos próximos; mas muitas vezes os falcões do crepúsculo são o primeiro anúncio do terror que se aproxima.

*estes animais fictícios aparencem no conto d’Os Cavaleiros do Reino do Horizonte.

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ago 16 2004

Adeus, meu Amigo

Uma estranha sensação de dever cumprido, foi o que senti quando a lâmina fria de minha espada trespassou a garganta do monstro. Meus braços foram empurrados uns contra os outros e podia ouvir minhas costelas estalando, mas a luz que furtivamente escapou do ferimento me trouxe tranqüilidade e paz.
Eu sabia que eles estavam lá fora, e lutavam também por mim. Sabia que eles não deixariam meu sacrifício em vão. Sabia, sem saber porque, que tudo ficaria bem novamente. Eu havia triunfado.
O sorriso de Katheryne brilhou outra vez no escuro, lembrando-me de porque eu lutara. O reino estava ameaçado, meus amigos eram caçados, mas diante disto tudo protegê-la ainda era minha prioridade.
Era mais do que dever ou devoção, era amor.

E, no final de anos de campanha, terminou-se. Estes foram os últimos pensamentos do meu personagem. Sinto um orgulho estranho dele, pois sei que ele é um vitorioso, mas sinto não poder mais vê-lo novamente.
Adeus, Harold Audrey, amigo. Que os céus te conservem em paz e que teus feitos durem a eternidade de um reino, um reino de fantasia.

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jun 9 2004

O Monolito da Honra

– uma crônica de Sir Glenn d’Leene

Escalei as escarpas rumo ao topo do pequeno planalto. Era pouco mais largo do que o forte ao qual me encontrara hospedado dias atrás. Lembrava-me do caminho entre as rochas ainda, um caminho estreito e íngreme, um caminho para poucos. E definitivamente não para os cavalos.
O topo era verdejante e vivo, agraciado por uma suave brisa que erguia as folhas de visgo e as pétalas das flores do campo. Não haviam árvores ou grandes arbustos. Tudo o que se erguia no centro do planalto era o objetivo de minha busca: o Monolito da Honra.
Tratava-se de um grande dente de pedra cinzenta que se erguia duas vezes e meia mais alto do que eu, bem no centro do planalto. Fora colocado ali há muitas eras por algum santo ou mesmo pelos pais das árvores diziam as lendas. Elas diversificavam em vários pontos, mas todas concordavam em um ponto crucial: a função do monolito.
Para homem algum o monolito apresentava-se de maneira igual, pois espelhava-se na honra e nos ideais de seu observador. Eu já o conhecia, mas precisava ter certeza de sua magia. Diziam que deveria ser o objetivo almejado de todo cavaleiro, uma rocha a erguer-se altiva para aqueles que soubessem onde procurar auxílio e inspiração.
Desembainhei a espada e rumei para o centro da formação, mas não avistei guardião algum. Somente uns pássaros pequenos que brincavam ao vento. Parecia exatamente igual ao que eu havia visto da primeira vez, anos atrás, mas em verdade não estava. Haviam meia duzia de pequenas marcas, arranhões ao seu redor e próximo ao topo uma lasca havia sido retirada. Olhei para ele com pesar, comparando-o a mesma visão de anos atrás. Haviam pequenas runas lapidadas em sua face, representando a honra, virtude, fé e outros ideiais de um cavaleiro.
Pus a mão sobre a pedra fria e fui tomado de uma rapida visão. Os campos de Leene, minha terra natal, avistados de sobre o Monte do Ente, cortados pelo correr ruidoso do riacho prateado que erguia jorros de água ao chicotear as rochas. Avistei as crianças correndo sobre os campos com espadas de madeira, saltando sobre as cercas, seguidas de perto por seus cães. Um vento repentino acordou-me de minha visão, tragando-me de volta ao presente e prolongando-se como um calafrio em minha espinha.
Eu era inocente, era puro e cheio de vigor. E agora, havia marcas em meu monolito, embora nenhuma das runas houvesse sido apagada, sequer rasurada. Por um momento senti-me orgulhoso. Tracei um dos arranhões com a ponta do meu dedo, lembrando-me da provação que provocara aquela ferida. Havia sido uma grande provação, e causou-me somente um pequeno arranhão.
Pensei em quantos cavaleiros deparavam-se com ruínas de pedra sobre o planalto, ou avistavam seus monolitos partidos e deteriorados pelo tempo. Tomado de súbita tranquilidade, deitei-me aos pés do monolito, despindo-me da armadura e largando longe a espada e escudo. Era belo ao erguer-se contra o céu azul e as nuvens que desfilavam muito acima. Era belo e vigoroso.
E eu orgulhava-me dele

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out 10 2003

Os últimos instantes de um Guardião

A casa de campo não suportaria o ataque por muito mais tempo. Não era uma fortaleza e, apesar das paredes de pedra e alicerces sólidos, as portas e janelas cederam rapidamente.
Em seu aposento, a rainha Gwenllian dobrava os vestidos, pondo-os cuidadosamente numa grande urna. Havia uma certa tristeza em seus gestos. A guarda real pouco conseguia entender das atitudes da soberana, mas aparentemente não havia muito a ser feito. Winfred e seus dois companheiros eram a última linha de defesa.
Ela parou por um momento em frente a cômoda e ergueu a tampa da caixinha de música. Uma melodia suave e metálica preencheu o aposento, contrastando instensamente com os sons brutais que vinham do andar térreo.
Winfred voltou-se para Duncan, ordenando que ficasse diante da porta. Olhou nos olhos de Earl; ambos sabiam o que devia ser feito.
Saindo do quarto, desmbainharam as espadas e desceram as escadas apressados. Os últimos sentinelas e servos leais estavam sendo subjugados frente a tropa inimiga. Havia sangue espalhado pelo chão e as mesas de jantar haviam sido viradas como barricadas que se mostraram ineficazes.
Uma dúzia de soldados de mantos cinzentos ocupava o salão, e mais uns dois fomoris gigantescos, que por pouco não passaram à porta. Earl e Winfred investiram contra os soldados, derrubando dois deles quase que imediatamente. Um dos fomoris ergueu Earl pelo pescoço, quase separando sua cabeça do corpo. Winfred foi atingido por duas flechas, no peito e na coxa, mas não fraquejou.
Noutro passo, trespassou as defesas de um soldado golpeando-o á altura do pescoço. Mas este golpe foi amplo o suficiente para abrir sua guarda. Um dos soldados correu a seu encontro e perfurou-lhe uma lança entre as costelas. Winfred caiu.
Permaneceu vivo por tempo suficiente para ver o tenente atravessar seu pescoço com a lâmina de sua própria espada que permaneceu erguida, presa entre os degraus da escada.
Sabendo que a rainha estava desprotegida, a tropa seguiu para o andar superior e foi desafiada pela presença sólida de Duncan em meio ao corredor. Havia mais chances de vencê-los assim, um a um. Mas, desafortunadamente Duncan sobreviveu somente a três assaltos e caiu sob a lâmina do machado de um dos soldados.
Havia um sorriso sarcástico nos lábios do comandante quando punha a mão na maçaneta. Dentro do cômodo, a rainha voltava suas costas para a parede, divisando o manto cinzento por detrás da fresta. A melodia suave preenchia o quarto e avançava pelo corredor, melodia que Winfred conhecia muito bem, que sua irmã lhe cantarolava em sua infância.
Sua irmã havia morrido por um descuido seu, um breve momento de medo. Não se podia culpar uma criança por isto. Mas não um adulto… não deixaria que ferissem Gwenllian como fizeram a Annabelle.
Ouviu-se um som rasgado e um grande baque surdo quando o fomori tombou sob o piso de madeira. As próprias vigas da estrutura gemeram com o golpe. A espada de Winfred se ergue em sua mão, coberta em sangue negro.
Outro soldado avançou em sua direção e golpeou-o no peito com o machado. A força do golpe foi tanta que Winfred foi jogado para trás, mas permaneceu de pé. Sequer havia em seu rosto sinal de dor. Com mais um golpe, tombou o portador do machado. Os três homens no corredor ainda olhavam para ele assustados. O sangue vertia-lhe do peito e do pescoço, mas ele sequer cambaleava.

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jul 21 2003

Coração Ardente

Havia chegado a pouco tempo no baronato de Werli e estava sentado numa das mesas fora da taverna local, bebendo um vinho de procedência duvidosa, mas muito bom, acompanhado de meu velho companheiro Erwin.
Conversávamos sobre nossas velhas aventuras, mas eu havia me virado para a rua e admirava um castelo sombrio sobre a colina. Algo de muito estranho pairava sobre aquela fortaleza, pois sua aparência acinzentada contrastava com uma única fonte de luz que brilhava em seu interior, tão grande quanto uma fogueira acesa em um dos quartos.
– O Coração Ardente – meu amigo declarou, interrompendo meus pensamentos – A fortaleza do barão Zvonimir possui uma história bastante dramática.
– Pago por ouvir esta.
– Muito bem – completou. A fortaleza fora concluída há cerca 20 anos pelo barão Zvonimir Werli para ser uma das mais ressistentes de toda o mundo conhecido, tarefa concluída com êxito extraordinário devido ao auxílio anão. Desta forma o povo de Werli jamais temeria outra invasão do povo do norte.
Dizem as línguas mais sorrateiras que a arrogância do barão provocou ódio nas fúrias da região, por motivos que poucos desconhecem. Talvez por fome de mais corpos ou pelas alianças com os povos do norte, imagino eu. Mas o fato é que uma delas se apresentou ao barão exigindo pouso para a noite da festa de conclusão da fortaleza. Conforme a tradição, ninguém poderia recusar pouso a uma bruxa e diante dos olhos do barão ela apareceu como a mais bela das criaturas.
Durante a noite, enquanto uma festa era promovida nos grandes salões, a bruxa se recolheu ao seu quarto e, tocando o chão, conjurou um incêndio. As chamas arderam durante semanas e muitos dos servos morreram queimados. O barão herdou do incêndio cicatrizes horríveis.
As paredes não cederam, embora todos os móveis tenham sido consumidos pelas labaredas. O castelo se provou forte o suficiente para resistir ao toque ardente da maldita criatura.
Mas o mais espantoso é o fato de que as chamas no quarto em que esta hospedou-se jamais se apagaram e, ainda hoje, quando esta se aproxima demais das terras do baronato, as chamas crescem e envolvem os salões.
O barão libertou todos os seus servos de suas obrigações e habita sozinho a fortaleza, recebendo alimento diário de súditos ainda fiéis. Sua vida resumiu-se a vigiar e combater as chamas de seu tão amado forte.
Se você apertar um pouco os olhos pode ver sua silhueta contra as chamas no interior.

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