jul 8 2014

Visitado pelo Rei

Por quatro dias não haverá nada mais de mim que possa cair-lhe a vista. Talvez não nada, mas com certeza pouco. Uma pena ocasional, quem sabe? E após quatro dias talvez eu não tenha mais asas, ou os pedaços estarão colados e unidos novamente. Em quatro dias abrirá minha couraça, operará meu âmago, minhas farpas e meus anseios. Serei ainda um monstro? Uma mantícora, um grifo, ou um homem?


jun 24 2012

Seamisai

Esta farpa de metal afiada…
Notei quando você parou de conjugar nossos verbos no futuro. Percebi também que teu sorriso, aquele que despontava no frio da manhã, não era mais para mim.

…presa numa haste longa…
Não se pode dizer que foi inesperado; que não percebemos quando tudo acabou. Exatamente como aqueles filmes que víamos no domingo a tarde, e do qual sabíamos o final.

…crava o peito e por muito…
Você se foi sem um último beijo. E tudo o que deveria ser dito estava expresso num olhar. Sua última frase uma farpa que ficou, com a tua voz e teu cheiro; impregnada em mim.

…ali permanece.
E quando o frio chega, e o amanhecer me apanha novamente, voltam a mim. E recordo que você partiu e não está mais aqui, comigo.


maio 28 2012

Agora eu sei…

Das sapatilhas azuis e brancas um ritmo inconstante, reduzindo em velocidade conforme aproximava-se. Parecia temer a reação dele ao vê-la, mas por sob as lentes grossas não era possível discernir seu olhar. Parou a frente dele e pousou sobre o gramado um ramo de lírios brancos.

Em seu âmago ela almejava o reencontro, mas afligia-lhe as palavras que treinara durante toda a semana. Começou dizendo que sentia a falta dele, mas a voz falhou-lhe no meio da sentença. Pigarreou e tentou novamente, com mais força na entonação. Ele continuava impassível a isso. Era esperado.

Então ela lembrou-lhe o passado, quando o sacrifício dele passou despercebido por si. Algo dentro dele remexeu-se. Ela sentia muito por não ter percebido suas intenções. O algo desenrolou-se e rugiu, ameaçador. A coragem subia-lhe como um vinho forte, e as palavras começaram a jorrar em goles grandes.

Agora eu sei o que você sentiu – ela disse – quando o mesmo aconteceu comigo. O punho dele se ergueu contra o granito. Queria que você pudesse me perdoar, e me aceitar. Esfolava os punhos, rugia com todas as forças de seus pulmões. Queria ter feito isso por você enquanto era tempo.

Mas o tempo já não era. Ele queria erguer o esquife, agarrá-la com força e torce-lhe o pescoço até que a vida se esvaísse dela. Queria tomar seus lábios e sugar seu calor. E tudo isto porque o tempo se foi, e ninguém o notou enquanto ele vivia.


out 23 2011

Validade

Findou-se agora, 23-OUT-11 11.30 PM +3:00 meu prazo de validade.
Resta esperar,… a conveniência.


set 14 2011

Never Hug Me!


fev 12 2009

Resgate

Foi numa noite fria de início de inverno que senti sua presença novamente. Pouco a pouco, surgindo dentre as sombras ela tocou meu ombro e se aninhou a ele, respousando os cabelos junto ao meu rosto. Junto a ela, uma suave radiância aqueceu-me, desfazendo todo a frigidez da noite que iniciava.

Vinha trajada para o combate, espada junto a bainha e coração disposto. O prêmio não era alto, tampouco íntegro, mas ela o desejava com coragem jamais igualada. Eu havia erguido defesas cruéis, ferrões e couraça em defesa de meu peito ferido.

Aproximei-me do abismo cambaleante, evitando que minhas farpas a sangrassem; mas ela se agarrou a mim, um espinho perfurando-lhe o peito. As palavras faltaram-nos enquanto caíamos sob as estrelas e antes que eu pudesse chegar ao chão ela se interpôs e me resgatou num beijo.

Luar acima e campos abaixo; os elísios carregaram nossas almas ao longe, num vôo impossível de ser detido.


jul 30 2007

O Monge e o Escorpião

uma historinha boba das que circulam na internet
Monge e discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o bichinho o picou e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio.
Foi então à margem tomou um ramo de árvore, adiantou-se outra vez a correr pela margem, entrou no rio, colheu o escorpião e o salvou. Voltou o monge e juntou-se aos discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados.
– Mestre, deve estar doendo muito! Porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda! Picou a mão que o salvara! Não merecia sua compaixão!
O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu:
– Ele agiu conforme sua natureza, e eu de acordo com a minha.

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jul 23 2007

Fragmentos

Pedaços do meu ser que eu ainda guardo, como aquele pequenino anel esquecido na arca. Fazem parte do meu ser, ou do que restou dele, pois estou morto. O Jefferson a quem conheceram morreu há muito tempo atrás e eu tento inutilmente me convencer de que não. Alguns dias parece-me que tudo permanece igual, e noutros tudo parece ter mudado, exceto um sentimento malogrado em meu peito; e então me sinto fino como uma folha de papel, como tecido frágil do miocárdio, que a qualquer momento pode romper-se, e então os fragmentos, pedaços do meu eu morto espalhar-se-iam pelo chão e aí ficariam.

Pagaria pelos meus atos, mas creio que estaria em paz. Parece um tanto banal e clichê e, para ser sincero eu concordo. Estou enumerando os mesmos sintomas apresentados pela maioria dos “mórbidos” ou “trevosos”, dos quais não me distingo nem mesmo a futilidade. Penso em procurar ajuda profissional, pois parece que toda a ajuda pessoal que eu recebi não parece ter surtido efeito e hoje apenas incomodo meus amigos com minhas buscas e questões vãs por um pedaço de Jefferson que eu nem sei onde está.

Ás vezes me sinto confortável por saber que estão felizes, mas entristeço sozinho. Dizia que por causa da apatia, por não ter pelo que lutar mas, creio hoje que me sinto triste simplesmente quando todos os outros estão felizes. Sinto-me só. Caminho sozinho pelas praças e passeios, vou ao teatro ou ao cinema só e, se bebo, o faço na companhia de meus amargores somente; e é de Dream Theater e Los Hermanos que estes se alimentam. Disse que eu estava melhor antes, quando parecia viver; mas prefere-me morto pois posso dedicar-me. Dedicar-me, se fujo a presença? Afasto-me de mim mesmo, temendo meus atos, meus pensamentos e sonhos.

Sonho periodicamente com coisas que nunca aconteceram; noite passada devorava ratos, e os achava apetitosos, como um corvo ou outra ave noturna. Como Ofélia ou sua irmã talvez, de pêlo malhado e pezinhos cinzentos tingidos do sangue dos roedores. Devorava ratos crus, mesmo sabendo que sujos e doentes me traria mal-estar. Tal qual meu veneno que escorre-me das presas e farpas, carapaça e ferrão.

Armadura e malha que teço para me proteger do mundo, para segurar todos os fragmentos em meu interior. Me sinto, me faço forte ao perceber os calos em minhas mãos, esquecendo-me da dor ao valorizar honra e coragem. Me sinto mais forte perto dos fortes, como se houvesse realmente mudado. Mas ainda sinto as marcas de flechas, nos dedos e em meu peito. Em verdade, pouco mudou, porque ainda estou em pedaços, como há dez anos quando pequeno me recriminaria por meus atos. Mal consigo expressar o significado e muitas vezes me sinto constrangido por participar de sua vida.

Mas dezena de andares acima ela está e eu, que mal posso comprar o meu carro sequer posso ver-lhe a silhueta refletida em minha moto. Moto que não é minha, como todas as lembranças que citei; fazem parte de um passado onde havia vida num corpo que agora jaz morto, em meio a tantos papéis, sonetos e palavras de pouco sentido, as quais compõe o que me é remanescente.
Quando eu me for, quem as recolherá e as agrupará em algo coerente? Será possível? Confio esta tarefa a um guardião da qual futuro incerto confio à amizade, toda esta a qual tenho negligenciado e rejeitado. Pois não sou eu que a mereço, mas um Jefferson que morreu…

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mar 12 2007

Três Vezes

Três vezes, três vezes amaldiçoado
pela ira, pelo rancor e pela mágoa
imprime no ar o sorriso saudoso
em lábios que não são teus.

Dorme em meu peito o veneno mortal
que guia uma pós-vida miserável
da qual aguardo, segundo sábias vozes
o elixir curativo da fênix.

Qual elixir poderia restaurar-me as carnes,
a vontade e a força outrora existente
no cerne de um coração verdadeiro?

Torna-te puro e íntegro,
e ganharás por três vezes o sorriso
amargo e melancólico da infelicidade.

Falta criatividade ou dedicação ainda. Falta sentimento. Mas talvez, para que ele floresça em outras pradarias deva apodrecer por aqui, portanto tentarei mais uma vez cavar dentre os restos o adubo para um novo florescer. Trago as sementes do ópio comigo

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out 22 2003

Aniversário

Não estou triste por causa do meu aniversário, diferente dos últimos anos. Não que eu esteja contente, ao contrário, mas minha angústia não têm relação com a aproximação do mesmo.
Estou me esforçando e não tem sido fácil para mim, estava combatendo a gripe com empenho mas… parece que nada vale realmente a pena. E agora a enfermidade já se vai, e não posso tê-la novamente.
Devo escrever sobre a saudade também. Estimulado pelo Ferio e pela Mica. Farpas em meu peito. Vou escrevendo aos poucos, sem a necessidade de postar. Queria gritar, esbravejar aos céus, mas minha voz se prende.
Estava pensando em fazer uma viagem no dia 23, visto que nem todos os meus amigos não estarão livres. Não, não estou cobrando, não me importo tanto com a data. Festa por festa a gente faz quase toda semana não é mesmo? Queria caminhar, com a mochila nas costas, para algum lugar. Algum amigo poderia me emprestar algumas pistolas? Sabe como é, os campos são perigosos agora.
Ainda não entendo o porquê de tudo. Quero saber, quero conhecer melhor, para o bem ou para o mal.
Semana difícil esta

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