nov 24 2016

Eu tive que deixá-la ir

Eu ainda a via no canto do meu olhar.
Me acompanhava silenciosa, cautelosamente,
me seguindo onde quer que eu fosse.
Me assombrando talvez?

Era feita de sentimentos não resolvidos,
de beijos nunca dados, traição nunca consumada,
repleta de piedade e desejos de bem-estar.
Era como estar de volta.

Quando chegava em casa ela me alcançava na porta.
E enquanto procurava as chaves no bolso,
reinava sobre nós aquele silêncio embaraçoso.
Eu tive que deixá-la ir.

A lâmina tremeu um pouco ao passar pelas costelas,
arranhou a parede ao fundo, manchando-a de carmesim
enquanto ela escorria aos meus pés.
Ainda tão silenciosa.

Arrastei-a para fora e enterrei no pátio em frente,
debaixo de uma árvore que os corvos reclamaram para si.
Revezam-se ao vigiá-la… para que não volte.
Para que encontre seu caminho para casa.


jul 23 2012

Alívio

Hoje eu acordei mais cedo, estava tremendo de frio. Levantei-me para pegar outra coberta, e descobri que não adiantaria. Estava mais frio aqui dentro do que lá fora…

 


jul 20 2012

Hipotermia, estágio 1

Um dos prazeres em se ler ao convés
é sob as páginas ter as mãos enregeladas,
os dedos crispados, ossos cristalizados,
e ser banhado pelo orvalho matinal.

Pois somente o naufragar do táctil
aproxima-nos da experiência da partida,
de tal modo semelhante aos sentidos
ao beijo da morte invernal.


jun 29 2012

Pequeno verso

Acho que morro um pouco a cada dia,
e talvez durante a noite ressuscite;
Restaurado pela noite, pelo frio e pela lua
que teimam em não me deixar.


mar 15 2012

Rainha do Amor e da Beleza

“I was with her when she died,” Ned reminded the king. “She wanted to come home, to rest beside Brandon and Father.” He could still hear her at times. Promise me, she had cried, in a room that smelled of blood and roses. Promise me, Ned.

Eddard Stark sobre sua irmã Lyana
Guerra dos Tronos, as Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin.


jul 28 2011

Saudosismo

– Minha mãe perguntou qual o livro você estava lendo.

É bom ser reconhecido pelos meus hábitos novamente, sejam os literários, poéticos ou boêmios. Isto me remete a uma época em que o frio imperava durante as manhãs e as noites e eu poderia ser visto vagando em silêncio, com um livro em mãos, imerso em um mundo que não o vosso.

E hoje a lembrança se aviva: há novamente um livro com páginas marcadas ao meu lado e um agasalho para as manhãs mais gélidas. Enquanto sigo errante para ou do trabalho leio contos do Neil Gaiman em Coisas Frágeis ao som melódico do Sonata Arctica.

Coisas Frágeis

– Ela disse que você estava bonito em claro.

Nunca me admirei em verdade. Não me acho narcisista ou devotado a aparência e, neste caso não acredito que era ao meu cabelo desgrenhado e barba por fazer que se referia. Mas vestia uma camisa de flanela branca e cinzenta e acredito seguramente, que o elogio se deve a meu porte e a aura que irradio quando confronto esse saudosismo envergando minhas cores cinzentas, o branco sobre negro, as virtudes sobre meus ressentimentos…


jul 12 2011

Um bom dia para Fugir

Ontem foi um bom dia para fugir, ligar o carro e dirigir até a beira-mar. Lá, sentar sobre o capô e vislumbrar os navios deslizando no horizonte enquanto o vento frio nos traria o inverno aos narizes, orelhas e os dedos desprotegidos das mãos.

Ontem, o celular poderia tocar, mas o rugir das ondas contra a baía afastaria todos os outros sons para longe. Seríamos nós, eu e você, o vento a cruzar o cinzento do céu erguendo as pipas do solo, afastando as nuvens e criando a espuma das ondas.

Ontem foi um bom dia para fugir, mas hoje eu me descubro sozinho em frente a um mar revolto que a maré deixou. Levou embora meu vento e trancou suas lembranças fundo em mim.

Se ainda fosse ontem, eu fugiria. Voaria contigo ao sabor do vento, para onde a vida não pudesse nos alcançar.


jun 17 2011

Congelado, parte 2

Eu já não podia sentir meus dedos. Tato, paladar e olfato foram tragados pelo frio e misteriosamente meus olhos e ouvidos foram parcialmente poupados. O açoitar do vento tornou-se uma canção constante e até onde minha vista alcança somente em um cinza difuso o mundo se manifestava.

Havia sacrificado tudo isso por ela e mesmo minha alma jazia agora encarcerada sob um cristal de gelo. Correria para ela se pudesse, para o calor de seus braços se vontade ainda houvesse. Mas minhas forças há muito haviam sido tragadas pelos fiordes, seu torpor e seus açoites.

– Diga-lhe que congelei – as palavras ainda ressoavam em minha mente quando meu fiel Leifr veio a mim. Prostrou-se cautelosamente a meia jarda das ameias, observando o continente sul encoberto pelas névoas.

– A rainha não suportará, meu senhor – manifestou-se pesaroso – mas não há o que se possa fazer, nada sob a rocha-de-gelo. Estendeu a mão para meu ombro, mas ela deteu-se fosca e difusa centímetros adiante, na superfície cristalina que me mantinha. – Um dia talvez, se o inverno partir, terá sua própria voz para respondê-la.


– continuidade ao Congelado, e atendendo a pedidos da Amanda e da Patrícia

 


abr 26 2011

Congelado

Fui enviado ao sul, para assegurar os bastiões e as passagens nas fronteiras mais longínquas. Há muito tempo candidatei-me a este serviço fui honrado com o título que o acompanha: senhor do Fiorde Branco, defensor das Escarpas do Açoite e protetor da Rainha de Vidro.

E foi lá que o emissário me encontrou, recostado às ameias negras da última fortaleza sobre o mar cinzento. Estava fatigado e isto se tornava evidente na quantidade de vapor que exalava de seu hálito. Trazia em sua mão um envelope com o selo de vossa majestade

Quebrou o selo diante de mim e, aos gritos apresentou-me o conteúdo da epístola. Esperou pacientemente que eu me pronunciasse. O vento uivava ruidosamente e permiti que, afora isto, o silêncio reinasse entre nós. Conforme entorpecia-nos os sentidos, aumentava sua urgência.

– Meu senhor, vossa rainha exige uma resposta a sua convocação – finalizou.

– Diga-lhe que congelei – desabafei. Velhas mentiras tornaram-se verdades e minha disposição foi sepultada sob uma muralha de gelo. Sei que ela não me perdoará, mas diga-lhe que permanecerei no sul.

Talvez eu o tenha dito baixo demais, ou talvez tenha congelado realmente pois ele permaneceu ainda alguns minutos incrédulo a esperar uma resposta. Por fim desistiu e partiu, deixando-me só ainda sobre as ameias do modo que me encontrou.


– inspirado na música Frozen, do Within Temptation


jun 4 2009

É junho e faz frio…

É junho e faz frio, finalmente o frio. Tive saudades e temi que ele não viesse outra vez, mas cumpriu o prometido.
Ano sim, ano não, me faz tirar do armário o sobretudo, minha segunda pele e sentir novamente prazer em caminhar pela noite.

A lua, meio encoberta pelas nuvens (ou seria névoa?) me observa curiosa, atenta. Sua luz argêntea não chega a tocar-me na escuridão. Pertenço a ela, creio. E ao frio, e me criaram como pai e mãe pouco zelosos, arremessando-me para o seio da vida. Dolorosa e doce vida.

Filha da escuridão também a morte. Minha irmã, minha cara-metade, anseio dos meus dias, fonte do meu desejo. Se esgueira pela noite e foge, correndo por vielas que não aquelas que freqüento. Certo dia ainda a encontro, ou me encontra, não sei ao certo.

Enquanto isso a noite avança vagarosamente, cobrindo de lágrimas brilhantes o negrume da escuridão e trazendo o toque do pai para junto de meu peito. Dedos como adagas, sopro como o hálito de um dragão; sua voz me perturba e atordoa. Pai.

Renasço do frio….