ago 30 2013

Sob as Cores…

A minha frente a realidade se desfez,
a fina camada de tinta sobre o mundo
descascou, desprendeu-se e caiu.

Como folhas amareladas pelo outono,
largadas ao solo acumularam diversos tons
a serem pisoteadas por mim.

Sob a camada que caiu somente uma sombra,
estruturas e pinceladas apressadas
num cinza verdadeiro.

De forma que, desfeita a ilusão
permanece somente o meu velho feudo,
pintado nas cores de seu senhor.


abr 16 2011

Sentenciados ao Inverno

O inverno se aproximava e dentro da velha casa as lembranças me irritavam durante todo o dia. Tomei-as todas de uma vez e atirei-as porta afora, arremessando uma garrafa de vinho para espantar as que tentavam voltar. Houve uma algazarra lá fora enquanto descobriam a neve recém caída.

Voltei a gasta poltrona junto ao fogo e adormeci por boa parte da tarde. Somente quando a noite chegou e os murmúrios cessaram que minha curiosidade despertou. Fui a janela afim de olhar o pátio e encontrei as pequeninas a sofrer com o frio.

Os sentimentos mais nobres haviam se aninhado em rebanhos e buscavam pelo ponto mais quente, onde a luz do sol ainda atravessava as muralhas altas. Mas os rancores permaneciam a beira de seu caminho; haviam derrubado um dos nobres e banqueteavam-se em seu pescoço e colo. Vísceras e sangue cobriam a neve, suas garras e lábios.

As lembranças mais frágeis e furtivas acomodaram-se nos cantos escuros, e sofriam o frio da minha solidão, batendo queixo em medo ou por congelamento. Os bravos, reduzidos a poucos, duelavam entre si numa rinha improvisada e seus pés já haviam cavado a neve até tornar-se lamacenta.

As lembranças mais preciosas eram tomadas por resgate e trocadas por proteção, calor ou alimento, enquanto a sátira caçoava incessantemente do infortúnio destas. O orgulho permanecia no alto de uma ameia, eventualmente assaltado pela geada que agora caía com vigor.

Em meio a todo o caos, pequenos olhos escuros encontraram os meus. Uma lembrança pequenina e sutil passava despercebida pelas outras, intocada e solitária. Parecia que todos os outros ignoravam inconscientemente sua presença, mas ela percebia a todos e a tudo. Olhava diretamente para mim com digna atenção, como que aguardando meu veredito.

Fechei as cortinas e deixei-as ao relento. O inverno chegara ao meu reino e não seriam todas as lembranças que sobreviveriam a ele…


jan 26 2011

O Baluarte

Decidi-me por um novo bastião em minha já austera fortaleza. É certo que há muitas eras ela não experimenta incrementos ou fortificações e as muralhas gastas sofrem o peso das inúmeras batalhas que presenciou. Na face oeste, onde uma terrível cicatriz cobria-lhe de alto abaixo projetei a obra: unificar as muralhas noroeste e oeste por um único e rijo baluarte.

Despi-me primeiro da malha e as placas gastas nos ombros e braços. Em seguida calcei as luvas de construtor e uma longa manta para me proteger do frio noturno e, munido de um carro e pá fui atrás de novas pedras que pudessem compor meu baluarte. Encontrei-as poucas na vastidão, muitas grandes demais para que eu pudesse cortar ou mover. Não tive escolha a não ser recorrer a meus pais.

Tomei-lhes o mausoléu e derrubei. Pedra a pedra carreguei-o aos meus domínios. O carro suportou o flagelo com dificuldade, mas findou-me o trabalho meses depois, com eixos tortos e rodas partidas. Somente então removi as grades farpadas e pontas-de-lança que deixei a proteger a cicatriz. Começara então a edificação de meu projeto.

Fundei alicerces em madeira e pavimentei o espaço entre eles com as lages mais finas e seguras. Em seguida erigi a muralha externa, pedra acima de pedra. As maiores encontravam seus lugares abaixo e outras encaixavam-lhes por sobre, sobrando o mínimo de espaço entre elas. Seriam ainda calçadas por rochas menores e outros alicerces em madeira. Trabalhei durante as manhãs e noites, onde o clima era mais ameno, ainda coberto pela longa manta como a  ocultar-me do olhar reprovador das miríades celestes. Tomou-me outros meses. E o mesmo para a muralha interna.

Por fim, misturei a cal, pedras moídas e terra para fazer uma argamassa que pudesse resistir ao tempo. Adicionei cola de gordura de boi para unir melhor. Junto a isso uma infinidade de pedras pequenas extraídas das ruínas da fortaleza, pedaços de grades e espadas quebradas de batalhas passada e os ossos de meus antepassados.

É possível perceber as feições de uma pessoa em seus restos, é o que dizem. Mas olhando para os crânios vazios de minha mãe e meu pai antes de mergulha-lhos na massa eu não vi seus olhares atentos e as feições de reprovação, nem mesmo sorriso despretensioso e frequente dela. Apenas quem sabe, de um modo sutil, a altivez de meu pai. Não havia notado, até o momento, como ao aproximar-me de minha mãe me tornara parecido com ele.

Seu crânio afundou lentamente na mistura, empurrado e fraturado pela lâmina da pá. Por fim a massa preencheu e acentou o interior da muralha dupla. E finalmente concluído, meu recente baluarte de pedras cinzentas, lâminas partidas, pó e cinzas, ossos e ruínas.

Então reinei sobre meus pais, amparado e protegido por eles como nunca outrora.


dez 28 2010

Através da Névoa II

Sua forma materializava-se na prancha. Parecia uma peça de xadrez, onde que o vestido comprido e rodado emoldurava-lhe o corpo esguio e a pequena tiara criava um pequeno detalhe entre os seus cabelos. Estes estavam amarrados às costas, numa pequena trança protegida da neblina matinal.

Desceu a tábua com cuidado redobrado, sozinha. Somente ao descer ergueu a mão enluvada para que o jovem pajem a segurasse. E assim não permaneceu por muito. Ajeitou o longo vestido enquanto a luz dourada irradiava sobre as pequenas pérolas e rendas de seus bordados.

E então sorriu, com os olhos e os lábios. Sorriu para além da névoa e eu senti aquele frio que brota das entranhas, paralisa os brônquios e nos permite as reações mais inesperadas. Acossei-me contra a parede. O sorriso não seria para mim. Seria?

Ouvi-lhe os sapatos transcorrendo os ladrilhos portuários sem interrupção. Aproximei-me para olhar e ela passou por mim, um pouco mais baixa, um tanto mais altiva. Mas não olhou-me os olhos, ao contrário, manteve os olhos fixos e os lábios comprimidos e seguiu…


dez 24 2010

Através da Névoa

Levantou cedo, bem antes do sol nascer. Vestiu-se rapidamente, pegou um casaco pesado e saiu. Não havia alma viva que ele pudesse ver nas ruas. A névoa matinal tornava os muros e quintais formas indistintas num mundo borrado e imóvel. Não havia vento, mas sim o frio da madrugada.

O som das ondas contra as traves do píer foi o que denunciou seu destino. Uns poucos estivadores já estavam lá, lidando com amarras e ganchos de atracação. No alto de um poste, um lampião criava uma suave radiância dourada que revelou as faces duras e inexpressivas dos operários.

O tinir singular de um sino anunciava a embarcação que esperava. Tornava-se visível e concreta, carranca e mastros despontando da névoa. E ela viria a bordo, através da névoa e pela manhã, trazendo consigo a radiância dourada do leste que ele tanto aguardara. Ela viria…


dez 17 2010

Versos calados

Uma florzinha pálida e sem cor,
pétalas descoloridas despencando,
um choro reprimido, coração acuado.

Tentam arrancá-la de seu lar,
romper seu elo com o mundo
e eu não sei como segurá-la.

Ela se aninha em meus braços
buscando a cumplicidade
que somente a amizade dispõe.

Nesta noite chora minha rainha,
e nenhuma estrela há de brilhar
quando até a poesia se cala.


nov 23 2010

Exílio

Em vigoroso movimento de grades e correntes
os portões cerram-se detrás de mim,
isolando-me em meu refúgio.

Poucos dias estive abrigado entre suas muralhas,
longe dos obuses e morteiros da guerra
travada nas vastidões adiante.

Vastidões que torno a recorrer em meu exílio,
uma terra árida, de ruínas cinzentas
que volto a chamar de lar.

Ó quão frias as noites em que solitário me cubro
almejando as estrelas que não vejo
além das cortinas das dores minhas.


ago 25 2010

Percurso

Percorro as ruas de calçadas fragmentadas entre as quais cresce a erva daninha. Apesar do que o nome sugere, a planta não é verde, ao invés tão cinzenta quanto a calçada. Cinzento também o asfalto, os muros e os panfletos neles colados.

Grisalhos e opacos os cabelos e os olhares dos transeuntes, alheios ao germinar da erva e das árvores cinzentas. Nem mesmo o gato que atravessa a estrada em disparada é completamente negro.

Ao subir a ladeira me deparo com o único ponto colorido em meu universo: os céus, acima dos edifícios e telhados exprime uma suave cor púrpura que se mescla ao horizonte banhado pela suave radiância de nossa lua argêntea.


jul 29 2010

O Último dos Cinzentos

Quase uma Era se foi. Para os elfos não pareceu mais que meia década, mas para os humanos toda uma geração envelheceu e partiu. Para a maioria dos humanos ao menos.

Apesar dos anos permaneço de pé, com as costas retas, a face altiva. A velhice me atingiu de sua maneira arrebatadora, tingindo em prata meus cabelos e ofuscando o brilho do olhar.
Mas a morte não veio, não levou consigo a vivacidade e o ardor de um guerreiro.

Mas isto porque, e somente porque, me nego a desistir, me agarrando aos últimos fiapos de esperança, às promessas e àquela vontade de vislumbrar o fim…


ago 4 2008

Agosto

Agosto amanhece, e o faz com nuvens cinzetas, uma brisa gelada e uma lua ausente; do jeito eu esperava, do modo que me lembrava.

A fogueira já está apagada quando desperto, e deixar o conforto das cobertas é um desafio, mas eu acabo por me colocar de pé. Enquanto recolho meus pertences para partir, ouço o som da chuva que se aproxima do leste.
Corro para uma árvore, e jogo o capuz sobre minha cabeça, mas a tormenta que chega não traz água alguma. O som se torna mais forte, ruidoso, e repleto de guinados enquato a sombra dos corvos preenche o acampamento.
Em poucos instantes eles desaparecem, voando em direção ao poente, deixando-me só a ponderar sobre a aura sinistra do novo mês, uma época de desgosto, repleta de ventos frios e do soluço dos pássaros.