mai 15 2012

Eridani

Na minha imagem preferida de você,
curvas  negras e reflexos castanhos,
uma alma sedutoramente rubra,
uma mente altiva e melancólica.

Mas o destino derruba as cortinas
e lança uma luz sobre sua tez,
transformando o sonho em névoa
e trazendo a outrora distante realidade.

Evaporaram-se as águas que vertiam dos teus olhos
e banhando minhas mãos e pulsos,
me algemavam ao sonhar.

De escravo me vejo liberto, nu e sincero
o vermelho agora me escorre do peito
e o azul inunda minh’alma.

- inspirado em I’m Sorry, Evergrey


abr 24 2012

Perfume, algodão e chocolate

Poucas coisas fazem tanta falta hoje quanto o perfume, o toque da camiseta contra o peito e o olhar de admiração.
Daquela admiração pura, simplesmente por se fazer presente e necessário.
Como chocolate ela disse.


mar 28 2012

Odeio por saber que eu leria

Odeio você por saber que eu leria,
odeio por me roubar minha paz temporária,
por elogiar e lembrar de mim…

Resta saber se só odeio. #espontaneidade.


mar 22 2012

Soft and only…

A manhã me chega aos poucos, gélida,
com centelhas da aurora me despertando.
Devo ter adormecido por dias – penso,
e movendo os lábios, sussurro teu nome.
Meus olhos piscam repetidas vezes
antes de abrirem-se por completo.
Meu olhar desliza pelo teto à cama
e descubro-me sozinho novamente.
Abaixo de mim somente os lençóis revoltos
relembram a tormenta noturna
que roubou a única garota que eu amei
e a afogou dentro de mim.

- Inspirado por Just Like Heaven, the Cure


mar 19 2012

19 Março segunda . 12ª semana

Doces e rubras as palavras,
mentira, amargor  e veneno
que consomem-me em saudade
de teus lábios, teus afagos,…

Atormentam-me silenciosas,
impondo sua áspera presença
tal qual pena que com força marca
páginas amareladas do passado.

Malditas sejam as palavras
cúmplices de minha dor,
patrocinadoras de meu tormento.

Amo-as enfim
por conterem em si toda a falsidade,
de minhas outrora doces lembranças.


Busque também por 23 Julho sexta . 30ª semana


fev 27 2012

Encontro Marcado

Volto a te procurar após meu longo exílio. Bato a porta mas ninguém atende. Sei que está aí, sei que se esconde. Eu a vi enquanto me seguia naquela madrugada. Semana passada deixei um recado avisando que voltaria. Mas você não está, ou finge que não. Eu sei.

Vejo os panfletos turísticos acumulados na entrada. Anunciam tua breve partida. Seria uma fuga, ou uma oportunidade que surgiu? Você não me deixaria desta forma, eu sei. Não posso culpar-te. Tentei obedecer todas as regras, mas estou aqui a sua porta novamente.

As correspondências chegam toda quarta-feira. Reconheço nisso tua mensagem. Voltarei bem cedo na quarta, e quando você abrir a porta estarei aqui. Combinado? E veremos novamente sentido em tudo isso. Eu sei!


out 3 2011

É chamada intuição,…

… ou empatia, e dentre minhas habilidades é das mais superestimada. Há um aspecto dela pouco notável, aquele que me faz perceber as palavras não ditas, secretamente desejadas.
- Não é bom nos vermos hoje…

O pior é que, tendo consciência destas e faltando a coragem ou a sinceridade em expressá-las, acabo por eu mesmo narrar, por desferir o golpe que me fere.
- Você não voltará mais…

Parece-me que ela – minha intuição – somente se manifesta quando sou desprezado (fato não tão raro) e as coisas parecem embaraçosas demais para que o meu trato social possa lidar.
- Eu sei, existe outra pessoa…

Apesar disto, transformo as palavras duras numa brincadeira sem sentido e termino dizendo que tudo permanece bem. Mas ao virar as costas, são meus olhos a encontrar do chão as lajotas.
- É, eu acho que acabou.


ago 25 2011

I see her…

I don’t need to talk about her or look at pictures… ’cause the truth is, a lot of times, I see her… on the street. I walk down the street, I see her in someone else’s face… clearer than any of the pictures you carry with you. I get that you’re in pain, but you got each other. You got each other! And I’m the one who’s gotta see her and the girls all the time. Everywhere I go! I even see the dog. That’s how fucked up I still am! I look at a German shepherd, I see our goddamn poodle. All right… All right…


- Charlie Fineman, em Reign over Me


ago 17 2011

Encanto

There’s nothing like a broken childhood
O pai chegava religiosamente ás 3:12 da manhã, considerando a caminhada trôpega desde o bar na esquina que acabara de fechar. Acordava a esposa aos berros quando ela mesma não o esperava de pé. Batia nela. Batia muito.
E depois subia a seu quarto, os passos errantes ressoando pelo assoalho enquanto galgava os degraus. Entrava no quarto puxando da calça o longo cinto de couro. Os gritos se faziam ouvir na madrugada.

There’s nothing like a broken home
Certo dia ela fugiu. Não aguentava mais as surras, pensou, sem considerar o envelope com o carimbo da clínica sobre a mesa da cozinha. Soube quando encontrou as roupas recolhidasdo varal sobre o sofá da sala. Não a culpou.
E então eram somente os dois, as brigas mais frequentes, embora ele agora revidasse. Muitas vezes o pai já não voltava para casa, ou quando voltava, passava as madrugadas em frente a TV, chorando baixinho.

There’s nothing like a tale from your hood
Destacou-se no colégio, ganhou uma bolsa e foi para a universidade. Tornou-se uma lenda na vizinhança e só aparecia nas vezes que o pai tinha crises. Contratou uma babá e esqueceu-se. Mais do que ele merecia, na verdade.
Conheceu-a numa conferência. Ela era ainda estudante e tinha nos olhos aquela admiração ostentosa da juventude. Os cabelos cheiravam a chocolate. Deu-lhe duas filhas e casou-se no dia de São Miguel.

There’s nothing like a record of restriction orders
Levou as meninas embora. Grazi tinha uma mancha negra no braço e ela o culpava. A mais velha já o odiava há anos e a puberdade tornava tudo pior. Sua atenção era voltada agora para celulares e garotos. O pai perdera o posto de herói quando enjoou de chocolate e começou a beber.
Recebeu a intimação em casa, das mãos da oficial de justiça que o recriminava com o olhar. Era de sua antiga vizinhança, ele supunha, mas não queria perguntar. Guardou-a na mesma gaveta onde haviam os papéis não assinados do divórcio, o contrato da babá e o envelope com o exame sua mãe. Pensou em emoldurar.


A idéia veio de uma série de influências externas: seriados (Lie to Me, Big Bang, CSI), filmes (Finding Forrester, entre outros), contos (Neil Gaiman especialmente) e mesmo algumas lembranças pessoais. Atraídas juntas recentemente pela música Spitfall, do Pain of Salvation.


ago 1 2011

O sétimo Amanhecer

O sétimo dia amanheceu chuvoso e frio, tal qual a noite que o precedeu. Você deveria ter retornado no quinto dia, como o disse e, mesmo sem acreditar, desejei que fosse verdade. Mas você não veio.

Lembro-me claramente do dia que você partiu, de como virei as costas para não ver tua silhueta desaparecer contra o horizonte. Talvez temesse o momento, talvez temesse o que ainda viria. O primeiro dia foi repleto de visões e delírios, pareceu-me um sono inquieto ao qual recusava-me a despertar.

Mas na manhã seguinte despertei preocupado. Mantive-me por perto da colina, mantendo teu legado tanto quanto pude. Mas no terceiro dia, o abrigo começou a desmoronar. Trave sob trave, fora arrastado para o solo imposição do tempo e do clima.

O quarto dia trouxe um brilho melancólico, leitoso, que despontou dentre as nuvens. Trouxe também a consciência de minha situação. Não houve chuva no quinto dia, quando você achou que voltaria. Talvez o sol a tenha encontrado e você decidiu se estabelecer ou a tempestade levou-a ainda mais para longe.

O fato é que você não retornou, creditando-me as palavras que respondi naquele dia derradeiro. Também não houveram sinais no sexto dia e a apreensão fez de mim seu lar novamente. Já não almejo tanto o teu retorno, mas me pergunto onde teus passos te levaram, onde eles se desviaram dos meus.

Empacoto minhas coisas na mochila logo pela sétima manhã e decido, talvez, seguir teus passos uma vez mais. Espero que isto me leve a suportar melhor tua ausência. Não quero pensar que terei que lidar com esta ausência um dia mais.

Torço, rezo, para que a oitava manhã traga como bênção a ausência do despertar; pois passei a prefirí-lo a ter meu juízo repetidamente torturado a cada novo dia…