out 3 2011

É chamada intuição,…

… ou empatia, e dentre minhas habilidades é das mais superestimada. Há um aspecto dela pouco notável, aquele que me faz perceber as palavras não ditas, secretamente desejadas.
- Não é bom nos vermos hoje…

O pior é que, tendo consciência destas e faltando a coragem ou a sinceridade em expressá-las, acabo por eu mesmo narrar, por desferir o golpe que me fere.
- Você não voltará mais…

Parece-me que ela – minha intuição – somente se manifesta quando sou desprezado (fato não tão raro) e as coisas parecem embaraçosas demais para que o meu trato social possa lidar.
- Eu sei, existe outra pessoa…

Apesar disto, transformo as palavras duras numa brincadeira sem sentido e termino dizendo que tudo permanece bem. Mas ao virar as costas, são meus olhos a encontrar do chão as lajotas.
- É, eu acho que acabou.


ago 25 2011

I see her…

I don’t need to talk about her or look at pictures… ’cause the truth is, a lot of times, I see her… on the street. I walk down the street, I see her in someone else’s face… clearer than any of the pictures you carry with you. I get that you’re in pain, but you got each other. You got each other! And I’m the one who’s gotta see her and the girls all the time. Everywhere I go! I even see the dog. That’s how fucked up I still am! I look at a German shepherd, I see our goddamn poodle. All right… All right…


- Charlie Fineman, em Reign over Me


ago 17 2011

Encanto

There’s nothing like a broken childhood
O pai chegava religiosamente ás 3:12 da manhã, considerando a caminhada trôpega desde o bar na esquina que acabara de fechar. Acordava a esposa aos berros quando ela mesma não o esperava de pé. Batia nela. Batia muito.
E depois subia a seu quarto, os passos errantes ressoando pelo assoalho enquanto galgava os degraus. Entrava no quarto puxando da calça o longo cinto de couro. Os gritos se faziam ouvir na madrugada.

There’s nothing like a broken home
Certo dia ela fugiu. Não aguentava mais as surras, pensou, sem considerar o envelope com o carimbo da clínica sobre a mesa da cozinha. Soube quando encontrou as roupas recolhidasdo varal sobre o sofá da sala. Não a culpou.
E então eram somente os dois, as brigas mais frequentes, embora ele agora revidasse. Muitas vezes o pai já não voltava para casa, ou quando voltava, passava as madrugadas em frente a TV, chorando baixinho.

There’s nothing like a tale from your hood
Destacou-se no colégio, ganhou uma bolsa e foi para a universidade. Tornou-se uma lenda na vizinhança e só aparecia nas vezes que o pai tinha crises. Contratou uma babá e esqueceu-se. Mais do que ele merecia, na verdade.
Conheceu-a numa conferência. Ela era ainda estudante e tinha nos olhos aquela admiração ostentosa da juventude. Os cabelos cheiravam a chocolate. Deu-lhe duas filhas e casou-se no dia de São Miguel.

There’s nothing like a record of restriction orders
Levou as meninas embora. Grazi tinha uma mancha negra no braço e ela o culpava. A mais velha já o odiava há anos e a puberdade tornava tudo pior. Sua atenção era voltada agora para celulares e garotos. O pai perdera o posto de herói quando enjoou de chocolate e começou a beber.
Recebeu a intimação em casa, das mãos da oficial de justiça que o recriminava com o olhar. Era de sua antiga vizinhança, ele supunha, mas não queria perguntar. Guardou-a na mesma gaveta onde haviam os papéis não assinados do divórcio, o contrato da babá e o envelope com o exame sua mãe. Pensou em emoldurar.


A idéia veio de uma série de influências externas: seriados (Lie to Me, Big Bang, CSI), filmes (Finding Forrester, entre outros), contos (Neil Gaiman especialmente) e mesmo algumas lembranças pessoais. Atraídas juntas recentemente pela música Spitfall, do Pain of Salvation.


ago 1 2011

O sétimo Amanhecer

O sétimo dia amanheceu chuvoso e frio, tal qual a noite que o precedeu. Você deveria ter retornado no quinto dia, como o disse e, mesmo sem acreditar, desejei que fosse verdade. Mas você não veio.

Lembro-me claramente do dia que você partiu, de como virei as costas para não ver tua silhueta desaparecer contra o horizonte. Talvez temesse o momento, talvez temesse o que ainda viria. O primeiro dia foi repleto de visões e delírios, pareceu-me um sono inquieto ao qual recusava-me a despertar.

Mas na manhã seguinte despertei preocupado. Mantive-me por perto da colina, mantendo teu legado tanto quanto pude. Mas no terceiro dia, o abrigo começou a desmoronar. Trave sob trave, fora arrastado para o solo imposição do tempo e do clima.

O quarto dia trouxe um brilho melancólico, leitoso, que despontou dentre as nuvens. Trouxe também a consciência de minha situação. Não houve chuva no quinto dia, quando você achou que voltaria. Talvez o sol a tenha encontrado e você decidiu se estabelecer ou a tempestade levou-a ainda mais para longe.

O fato é que você não retornou, creditando-me as palavras que respondi naquele dia derradeiro. Também não houveram sinais no sexto dia e a apreensão fez de mim seu lar novamente. Já não almejo tanto o teu retorno, mas me pergunto onde teus passos te levaram, onde eles se desviaram dos meus.

Empacoto minhas coisas na mochila logo pela sétima manhã e decido, talvez, seguir teus passos uma vez mais. Espero que isto me leve a suportar melhor tua ausência. Não quero pensar que terei que lidar com esta ausência um dia mais.

Torço, rezo, para que a oitava manhã traga como bênção a ausência do despertar; pois passei a prefirí-lo a ter meu juízo repetidamente torturado a cada novo dia…


jul 28 2011

Saudosismo

- Minha mãe perguntou qual o livro você estava lendo.

É bom ser reconhecido pelos meus hábitos novamente, sejam os literários, poéticos ou boêmios. Isto me remete a uma época em que o frio imperava durante as manhãs e as noites e eu poderia ser visto vagando em silêncio, com um livro em mãos, imerso em um mundo que não o vosso.

E hoje a lembrança se aviva: há novamente um livro com páginas marcadas ao meu lado e um agasalho para as manhãs mais gélidas. Enquanto sigo errante para ou do trabalho leio contos do Neil Gaiman em Coisas Frágeis ao som melódico do Sonata Arctica.

Coisas Frágeis

- Ela disse que você estava bonito em claro.

Nunca me admirei em verdade. Não me acho narcisista ou devotado a aparência e, neste caso não acredito que era ao meu cabelo desgrenhado e barba por fazer que se referia. Mas vestia uma camisa de flanela branca e cinzenta e acredito seguramente, que o elogio se deve a meu porte e a aura que irradio quando confronto esse saudosismo envergando minhas cores cinzentas, o branco sobre negro, as virtudes sobre meus ressentimentos…


jul 13 2011

Ao Sexto Dia

Vejo as luzes e percebo que já estamos em Julho.
Ao final deste, terei o fim do sexto dia e me pergunto quanto tempo mais eu contarei…

I see the bright lights e realize that’s already July.
At its end, there will be the 6th day and I wonder how longer I’ll count…


jul 12 2011

Um bom dia para Fugir

Ontem foi um bom dia para fugir, ligar o carro e dirigir até a beira-mar. Lá, sentar sobre o capô e vislumbrar os navios deslizando no horizonte enquanto o vento frio nos traria o inverno aos narizes, orelhas e os dedos desprotegidos das mãos.

Ontem, o celular poderia tocar, mas o rugir das ondas contra a baía afastaria todos os outros sons para longe. Seríamos nós, eu e você, o vento a cruzar o cinzento do céu erguendo as pipas do solo, afastando as nuvens e criando a espuma das ondas.

Ontem foi um bom dia para fugir, mas hoje eu me descubro sozinho em frente a um mar revolto que a maré deixou. Levou embora meu vento e trancou suas lembranças fundo em mim.

Se ainda fosse ontem, eu fugiria. Voaria contigo ao sabor do vento, para onde a vida não pudesse nos alcançar.


jun 21 2011

Eclipse Lunar

Queria que você pudesse ter a certeza disto tudo, especialmente que quando longe, eu estiver pensando somente em você. Pois eu vou estar. E quando finalmente puder pousar minha cabeça ao travesseiro a noite estarei imaginando o teu colo novamente a me embalar e tua voz a me encantar. Assim dormirei tranquilamente, embora ansioso. Ansioso pelo retorno.

- originalmente em 3/jul/09


jun 15 2011

Recordações

A campainha tocou logo cedo. Ainda de pantufas e com a escova de dentes na mão corri até a porta, mas não havia ninguém no corredor. Ouvi uma risadinha marota e me voltei para as escadas, mas somente um vulto escuro passou pelos meus olhos.

Mas diante da porta havia uma pequena cesta de vime coberta por papel de seda. Ergui cuidadosamente e fechando a porta com o pé, levei-a até a mesa da cozinha. Sob a cobertura de papel haviam dezenas de lembranças, congeladas em papel brilhante.

Algumas eram alegres e amareladas, laranjas ou vermelhas, mas também haviam aquelas verdes e as azuis… ah, as azuis… grandes panoramas celestes que continham o brilho dos nossos olhos. Haviam as velhas lembranças em sépia, e os dias melancólicos impressos em preto e branco, nebulosos e desfocados. Fotografias de tudo quanto é tipo e gênero.

Eram figuras de tempos que eu nem lembrava mais, de pessoas que mal recordava e que nunca imaginei haverem sido fotografadas.

Uma velha imagem de meu pai e mãe comigo ao ventre, e outra de meus irmãos rolando sobre a relva do sítio de meu tio-avô. Uma fotografia do Cristiano nos tempos de primário, e as velhas rachaduras do meu quarto. Havia uma da noite estrelada vista de sob a cortina e uma das primeiras imagens do meu cachorro. Figuras dos meus canários, do meu primeiro amor não correspondido, das quedas e dos passeios de bicicleta, dos almoços de família e da pose de coralista com gorro de natal.

Tantas e tantas recordações… e dentre as últimas, uma foto sua. Agarradinha ao meu braço, sorrindo com aqueles imensos olhos brilhando da maneira que você disse que somente eu sabia fazer. Senti saudades e vi seu recado colado junto a geladeira, dizendo que traria pizza e sprite para o jantar.


Publicado inicialmente em algum momento de 2004.
Omiti aqui o último parágrafo, pois este trata-se hoje de um rumo diverso a esta realidade…


abr 16 2011

Sentenciados ao Inverno

O inverno se aproximava e dentro da velha casa as lembranças me irritavam durante todo o dia. Tomei-as todas de uma vez e atirei-as porta afora, arremessando uma garrafa de vinho para espantar as que tentavam voltar. Houve uma algazarra lá fora enquanto descobriam a neve recém caída.

Voltei a gasta poltrona junto ao fogo e adormeci por boa parte da tarde. Somente quando a noite chegou e os murmúrios cessaram que minha curiosidade despertou. Fui a janela afim de olhar o pátio e encontrei as pequeninas a sofrer com o frio.

Os sentimentos mais nobres haviam se aninhado em rebanhos e buscavam pelo ponto mais quente, onde a luz do sol ainda atravessava as muralhas altas. Mas os rancores permaneciam a beira de seu caminho; haviam derrubado um dos nobres e banqueteavam-se em seu pescoço e colo. Vísceras e sangue cobriam a neve, suas garras e lábios.

As lembranças mais frágeis e furtivas acomodaram-se nos cantos escuros, e sofriam o frio da minha solidão, batendo queixo em medo ou por congelamento. Os bravos, reduzidos a poucos, duelavam entre si numa rinha improvisada e seus pés já haviam cavado a neve até tornar-se lamacenta.

As lembranças mais preciosas eram tomadas por resgate e trocadas por proteção, calor ou alimento, enquanto a sátira caçoava incessantemente do infortúnio destas. O orgulho permanecia no alto de uma ameia, eventualmente assaltado pela geada que agora caía com vigor.

Em meio a todo o caos, pequenos olhos escuros encontraram os meus. Uma lembrança pequenina e sutil passava despercebida pelas outras, intocada e solitária. Parecia que todos os outros ignoravam inconscientemente sua presença, mas ela percebia a todos e a tudo. Olhava diretamente para mim com digna atenção, como que aguardando meu veredito.

Fechei as cortinas e deixei-as ao relento. O inverno chegara ao meu reino e não seriam todas as lembranças que sobreviveriam a ele…