jul 28 2011

Saudosismo

- Minha mãe perguntou qual o livro você estava lendo.

É bom ser reconhecido pelos meus hábitos novamente, sejam os literários, poéticos ou boêmios. Isto me remete a uma época em que o frio imperava durante as manhãs e as noites e eu poderia ser visto vagando em silêncio, com um livro em mãos, imerso em um mundo que não o vosso.

E hoje a lembrança se aviva: há novamente um livro com páginas marcadas ao meu lado e um agasalho para as manhãs mais gélidas. Enquanto sigo errante para ou do trabalho leio contos do Neil Gaiman em Coisas Frágeis ao som melódico do Sonata Arctica.

Coisas Frágeis

- Ela disse que você estava bonito em claro.

Nunca me admirei em verdade. Não me acho narcisista ou devotado a aparência e, neste caso não acredito que era ao meu cabelo desgrenhado e barba por fazer que se referia. Mas vestia uma camisa de flanela branca e cinzenta e acredito seguramente, que o elogio se deve a meu porte e a aura que irradio quando confronto esse saudosismo envergando minhas cores cinzentas, o branco sobre negro, as virtudes sobre meus ressentimentos…


jul 13 2011

Ao Sexto Dia

Vejo as luzes e percebo que já estamos em Julho.
Ao final deste, terei o fim do sexto dia e me pergunto quanto tempo mais eu contarei…

I see the bright lights e realize that’s already July.
At its end, there will be the 6th day and I wonder how longer I’ll count…


jul 12 2011

Um bom dia para Fugir

Ontem foi um bom dia para fugir, ligar o carro e dirigir até a beira-mar. Lá, sentar sobre o capô e vislumbrar os navios deslizando no horizonte enquanto o vento frio nos traria o inverno aos narizes, orelhas e os dedos desprotegidos das mãos.

Ontem, o celular poderia tocar, mas o rugir das ondas contra a baía afastaria todos os outros sons para longe. Seríamos nós, eu e você, o vento a cruzar o cinzento do céu erguendo as pipas do solo, afastando as nuvens e criando a espuma das ondas.

Ontem foi um bom dia para fugir, mas hoje eu me descubro sozinho em frente a um mar revolto que a maré deixou. Levou embora meu vento e trancou suas lembranças fundo em mim.

Se ainda fosse ontem, eu fugiria. Voaria contigo ao sabor do vento, para onde a vida não pudesse nos alcançar.


jun 21 2011

Eclipse Lunar

Queria que você pudesse ter a certeza disto tudo, especialmente que quando longe, eu estiver pensando somente em você. Pois eu vou estar. E quando finalmente puder pousar minha cabeça ao travesseiro a noite estarei imaginando o teu colo novamente a me embalar e tua voz a me encantar. Assim dormirei tranquilamente, embora ansioso. Ansioso pelo retorno.

- originalmente em 3/jul/09


jun 15 2011

Recordações

A campainha tocou logo cedo. Ainda de pantufas e com a escova de dentes na mão corri até a porta, mas não havia ninguém no corredor. Ouvi uma risadinha marota e me voltei para as escadas, mas somente um vulto escuro passou pelos meus olhos.

Mas diante da porta havia uma pequena cesta de vime coberta por papel de seda. Ergui cuidadosamente e fechando a porta com o pé, levei-a até a mesa da cozinha. Sob a cobertura de papel haviam dezenas de lembranças, congeladas em papel brilhante.

Algumas eram alegres e amareladas, laranjas ou vermelhas, mas também haviam aquelas verdes e as azuis… ah, as azuis… grandes panoramas celestes que continham o brilho dos nossos olhos. Haviam as velhas lembranças em sépia, e os dias melancólicos impressos em preto e branco, nebulosos e desfocados. Fotografias de tudo quanto é tipo e gênero.

Eram figuras de tempos que eu nem lembrava mais, de pessoas que mal recordava e que nunca imaginei haverem sido fotografadas.

Uma velha imagem de meu pai e mãe comigo ao ventre, e outra de meus irmãos rolando sobre a relva do sítio de meu tio-avô. Uma fotografia do Cristiano nos tempos de primário, e as velhas rachaduras do meu quarto. Havia uma da noite estrelada vista de sob a cortina e uma das primeiras imagens do meu cachorro. Figuras dos meus canários, do meu primeiro amor não correspondido, das quedas e dos passeios de bicicleta, dos almoços de família e da pose de coralista com gorro de natal.

Tantas e tantas recordações… e dentre as últimas, uma foto sua. Agarradinha ao meu braço, sorrindo com aqueles imensos olhos brilhando da maneira que você disse que somente eu sabia fazer. Senti saudades e vi seu recado colado junto a geladeira, dizendo que traria pizza e sprite para o jantar.


Publicado inicialmente em algum momento de 2004.
Omiti aqui o último parágrafo, pois este trata-se hoje de um rumo diverso a esta realidade…


abr 16 2011

Sentenciados ao Inverno

O inverno se aproximava e dentro da velha casa as lembranças me irritavam durante todo o dia. Tomei-as todas de uma vez e atirei-as porta afora, arremessando uma garrafa de vinho para espantar as que tentavam voltar. Houve uma algazarra lá fora enquanto descobriam a neve recém caída.

Voltei a gasta poltrona junto ao fogo e adormeci por boa parte da tarde. Somente quando a noite chegou e os murmúrios cessaram que minha curiosidade despertou. Fui a janela afim de olhar o pátio e encontrei as pequeninas a sofrer com o frio.

Os sentimentos mais nobres haviam se aninhado em rebanhos e buscavam pelo ponto mais quente, onde a luz do sol ainda atravessava as muralhas altas. Mas os rancores permaneciam a beira de seu caminho; haviam derrubado um dos nobres e banqueteavam-se em seu pescoço e colo. Vísceras e sangue cobriam a neve, suas garras e lábios.

As lembranças mais frágeis e furtivas acomodaram-se nos cantos escuros, e sofriam o frio da minha solidão, batendo queixo em medo ou por congelamento. Os bravos, reduzidos a poucos, duelavam entre si numa rinha improvisada e seus pés já haviam cavado a neve até tornar-se lamacenta.

As lembranças mais preciosas eram tomadas por resgate e trocadas por proteção, calor ou alimento, enquanto a sátira caçoava incessantemente do infortúnio destas. O orgulho permanecia no alto de uma ameia, eventualmente assaltado pela geada que agora caía com vigor.

Em meio a todo o caos, pequenos olhos escuros encontraram os meus. Uma lembrança pequenina e sutil passava despercebida pelas outras, intocada e solitária. Parecia que todos os outros ignoravam inconscientemente sua presença, mas ela percebia a todos e a tudo. Olhava diretamente para mim com digna atenção, como que aguardando meu veredito.

Fechei as cortinas e deixei-as ao relento. O inverno chegara ao meu reino e não seriam todas as lembranças que sobreviveriam a ele…


abr 11 2011

Valor de um Resgate

“Não há como resgatar os que morreram, Nihal. Não há no mundo qualquer tesouro bastante precioso para resgatar uma única vida.”
- Ido, em A Garota da Terra do Vento, Cônicas do Mundo Emerso

Nesta manhã, enquanto questionava o meu valor, surpreendi-me com este trecho. Acredito ainda que minhas dúvidas acerca de mim mesmo são válidas, mas perdem e muito o sentido quando comparadas àquelas sobre as pessoas que eu sofri em ver partir.

Lembrei-me de minha amiga, tão cheia de vida e radiância e intui, que sua vida – principalmente agora – é muito mais valiosa do que a minha, e de que qualquer outro tesouro que eu ousasse conquistar para resgatá-la.

Me conforta somente o fato de que, um dia, valerá também a minha tal exorbitância. E por causa disto, não haverá ninguém capacitado a resgatá-la.


mar 31 2011

Futuro do Pretérito

Engraçado como às vezes o passado e o futuro parecem uma coisa só. Como tudo o que se é parece um mero reflexo, um fragmento de uma onda que começou há muito tempo lá atrás (ou lá na frente).

Voltaremos nós ao princípio, ou seguiremos rumo a um novo início? De qualquer maneira não será o futuro em breve o passado?

Filosofei.


mar 4 2011

Amar-te ia

Lembra quando nos vimos pela última vez?
Você me ofereceu um abraço e um beijo
e mesmo após longos anos sem nos falar
me convidou para beber contigo?

E eu todo ocupado respondi que gostaria,
mas não havia como, não tinha tempo.
“Talvez numa outra vez, talvez em junho”.
Mas junho nunca veio.

E você me olhou daquele jeito e eu percebi
que era o mesmo olhar que eu já conhecia.
E como se não quisesse que eu me fosse,
me abraçou.

É difícil pensar que iria acabar um dia,
e que aquele poderia ter sido nosso último café.
E me dói pensar que não terei outra chance
para abraçar você.

Eu deveria ter encontrado um tempo,
ter encontrado um jeito, ter parado de pensar.
Mas agora você se foi e aquela bebida é
muito tarde para aceitar.

Quantas vezes tentei corrigir meu erro,
e voltar àquele lugar, se você ainda estivesse lá
eu desejaria que não fosse tarde demais
para voltar.

Estes versos que eu tento escrever a meses são inspirados na partida de uma grande amiga minha em conjunto com a repetição quase incessante da música Cut Here, do the Cure.


fev 17 2011

Lembro-me hoje…

Lembro hoje do teu sorriso, aquele incontido e pleno de satisfação quando fazia algo para supreender-te. Lembro, também hoje, o toque da tua camiseta quando me abraçava, os teus braços a volta do meu pescoço, o cheiro que emanava suave do teu pescoço. Lembro hoje que desejavámos não ter fim algo que durante tão pouco tornou-se eterno.

Guardo as lembranças em um baú a minha cabeceira, onde posso ver-te todos os dias; em olhos que não os teus, em vozes que não a tua. Egoísta, por querer hoje partilhar duma alegria, dum momento que não mais a nós pertence. Ao contrário, a um passado que perfeito em seu baú está.