jan
13
2005
- outro conto de Ethrü
A noite encobriu o arvoredo, transformando os troncos próximos em meros rascunhos ocultos nas sombras. Tuulikki caminha descalça sobre a relva, temendo por seus próprios passos, mas resoluta de seu destino.
Ao alcançar um pequena clareira ela detém-se, buscando no céu o prateado crescente da lua e o brilho lacrimoso das estrelas. Respira profundamente, tragando o frio do ar noturno. E então ela ouve um pequeno ruído.
Era metálico, como que uma corrente correndo sobre a relva. Ouve também um tossir solitário, gutural e aterrador que provoca-lhe arrepios. A mata sob seus pés está gelada e úmida e isto contribuí para a tensão que corre-lhe o corpo, eriçando-lhe os pequenos pêlos sobre os braços nus.
Tuulikki busca em volta pelo autor do ruído e distingue, no lado mais longínquo da clareira, sob a sombra de uma grande árvore, dois pontos vermelhos a fitá-la.
Durante a noite os lobos tinham olhos vermelhos, diziam os antigos, e ela sabia ser verdade; pois no norte haviam muitos lobos, e eles se reuniam a volta dos casebres durante o anoitecer.
Ela quis correr, mas seus olhos não puderam desviar-se. Por algum tempo permaneceu parada, até que a sombra latiu. Uma, duas, três vezes. Aproximou-se timidamente a passos curtos enquanto a corrente corria de lado a outro, acompanhando o movimento do lobo.
E era mesmo um lobo, um grande lobo de pêlo cinzento, grosso e comprido. A bocarra aberta arfava, e ele parecia rugir, embora de modo sufocado. Em seu pescoço uma grande argola de ferro engatada a qual estava uma corrente, mais grossa do que o polegar da moça.
O pescoço do monstro parecia machucado pela argola e ele sentia-se incomodado por isto. Ao seu redor, um odor fétido, assim como restos de ossos e grossas camadas de terra pisoteada.
Estendeu a mão para ele e tocou os pêlos em sua fronte. Rapidamente ele se moveu e ela recuou a mão um pouco. Mas não houve dor ou sangue, somente o toque úmido do focinho do animal e seu hálito quente na noite fria. Encarou-a com olhos duvidosos, embora isto não amenizasse o terror que inspirava.
A garota enlaçou o focinho do monstro em seus braços e, sentando sobre suas próprias pernas, deitou a cabeça dele sobre o colo. Ao esbarrar contra a argola enferrujada, avistou nela pequeninas letras que formavam o nome “Ulfask”. Só o notou porque a argola gemeu e trincou a seu primeiro toque.
Ao segundo toque a argola se partiu de todo, caindo sobre a relva e colo de Tuulikki. A fera que outrora atormentara três reinos estava novamente a solta…
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ago
12
2003
Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse
Orpheu surpreendeu, bem mais que a peça argentina. Fernando Pessoa era um louco e tanto.
O Menino do Dedo Verde eu já havia visto, mas repeti para acompanhar o pessoal. É sempre muito engraçado.
Conheci uma garota demais, totalmente meiga e nem um pouquinho tímida. Ela gosta de declamar, vejam só.
Corri para casa com os olhos voltados para o alto… as estrelas roddopiavam em minha frente mas a lua me instigava, acordando o lobo em mim… ele quer arrebentar as correntes e fugir, talvez se vingar. E eu não posso fazer muito para impedir.
A noite trouxe o frio, e o frio veio trazer prazer, e o prazer é doloroso, impulsiona o sangue, que me desperta a fúria, a fúria ao ver a lua alta contra o céu estrelado, estrelas que vieram com a noite. A noite trouxe o frio…
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ago
5
2003
O cavaleiro avançava resoluto, galopando velozmente sobre os prados. A sua frente surgiu um lanceiro vestindo as cores inimigas. Impetuosamente o cavaleiro se atirou sobre ele com a lança em justa, certo de que, como outros tantos que já enfrentara, este cairia frente a seu golpe poderoso.
Mas o verdadeiro golpe foi desferido pelo flanco, de um arqueiro oculto nos bosques que acertou o cavaleiro entre as costelas. A flecha não conseguiu penetrar a malha, mas provocou um latejar intenso e abrupto, que jogou o cavaleiro ao chão. Suas costas chocaram-se contra o solo com violência e a dor aumentara.
Logo aproximaram-se um trio de lanceiros que violentamente o golpeavam com achas de armas. A couraça forjada durante eras resistia bravamente, entortando a ponta das armas. Ainda assim, os golpes desferidos feriam o cavaleiro por sob a malha, provocando contusões e pequenos cortes.
Com dificuldade ergueu-se acima de seus oponentes, sustentando a espada um tanto desajeitadamente. Ouviu-se então um uivo distante, fraco e lamentoso que chegou aos ouvidos do cavaleiro como uma súplica. Ele ainda recordava, milhas distante sob a floresta, ele acorrentara um lobo. Jazia preso e enclausurado pela vontade do cavaleiro, e agora exigia sua libertação.
Ignorando-o, o cavaleiro firmou-se sobre os dois pés e desferiu um golpe violento contra as formas borradas a sua frente. Seu estômago latejava e em sua cabeça tudo estava confuso, distorcido. Ainda assim ele não queria libertar a força selvagem do lobo que uivava instigando-o.
Outro golpe acertou-o no flanco, forçando-o a recuar um passo. Sequer podia ver seus atacantes. Não importa quantos seriam, ele precisava vencê-los sem o auxílio do monstro. Mas neste momento o cavaleiro se pergunta se é possível.
E o lobo permanece uivando “liberta-me”.
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