mar 27 2012

Coletor de Migalhas

Segue a comitiva entre os cães. Traz consigo peças diversas de armaduras presas sobre o gibão. Malha e placas, uma no ombro, outra no punho, talvez um gorjal amassado. Parecem ter sido coletadas e unidas a partir de diversos conjuntos diferentes. Tem consigo um escudo sem brasão. Foi apagado, ou rasurado há muito tempo.

A barba por fazer é falhada junto ao queixo. A face encovada e mãos ossudas que tremem ligeiramente. Os olhos sem cor, seguem fixos ao chão. Por vezes encontra algo a que atribui algum valor, e coleta. Põe tudo numa grande sacola que enverga-lhe as costas. Não parece haver muito, mas é suficiente para reduzir-lhe as passadas.

Dizem alguns que são as sobras da comitiva real que coleta. Outros, que é menos que isto. Mas ele parece não se importar, ao contrário, baixa a cabeça as críticas dos senhores e seus cavaleiros. Dizem que ele mesmo foi cavaleiro outrora, e que a espada que carrega a bainha, o único e verdadeiro presente de uma rainha.


mar 15 2012

Rainha do Amor e da Beleza

“I was with her when she died,” Ned reminded the king. “She wanted to come home, to rest beside Brandon and Father.” He could still hear her at times. Promise me, she had cried, in a room that smelled of blood and roses. Promise me, Ned.

Eddard Stark sobre sua irmã Lyana
Guerra dos Tronos, as Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin.


mar 9 2012

Cão

O cão latiu e abanou a cauda. Era uma criatura enorme e hirsuta, pelo menos sessenta quilos de cão, mas amigável.
- A quem pertence? – o rapaz perguntou novamente.
- Ora, a si mesmo, e aos Sete. Quanto ao nome, não me diz qual é.
Chamo-lhe Cão.

Conversa entre o escudeiro Podrick e o septão Meribald, em O Festim dos Corvos, das Crônicas de Gelo e Fogo – George R. R. Martin


jan 19 2012

A Contenda

Uma flâmula azul tremulando no horizonte foi o que me chamou atenção naquela tarde. Havia, é claro, nuvens de poeira e o clamor do aço contra o aço mas o cisne argênteo sobre o campo l’azure capturou meu olhar. Conhecia o estandarte, conhecia seu portador.

Saltei de sobre as muralhas e corri a seu resgate, temendo pelo pior. Mas sequer poderia se comparar ao que eu veria em campo: o cavaleiro, portando completa armadura de placas conduzia seu garrano violentamente contra um oponente idêntico a si.

O choque das lanças arremessava lascas de freixo, algumas tão extensas quanto meu antebraço, ao ar. Escudos tinham as tinturas gastas pelo embate e as placas aqui e ali apresentavam deformações diversos. Em lastimável estado se apresentavam os cavaleiros, ofegantes e exaustos da batalha.

Eu não podia ver suas faces e a falta de discernimento não permitiu-me tomar partido embora, nos movimentos de olhos e gestos de ambos os reconheci o guerreiro sob a armadura. Meu amigo duelava contra si, indeciso sobre desistir ou subjugar a si mesmo. De imediato, larguei a espada e adotei meu papel na contenda: seria eu a confortar o derrotado.


abr 11 2011

Valor de um Resgate

“Não há como resgatar os que morreram, Nihal. Não há no mundo qualquer tesouro bastante precioso para resgatar uma única vida.”
- Ido, em A Garota da Terra do Vento, Cônicas do Mundo Emerso

Nesta manhã, enquanto questionava o meu valor, surpreendi-me com este trecho. Acredito ainda que minhas dúvidas acerca de mim mesmo são válidas, mas perdem e muito o sentido quando comparadas àquelas sobre as pessoas que eu sofri em ver partir.

Lembrei-me de minha amiga, tão cheia de vida e radiância e intui, que sua vida – principalmente agora – é muito mais valiosa do que a minha, e de que qualquer outro tesouro que eu ousasse conquistar para resgatá-la.

Me conforta somente o fato de que, um dia, valerá também a minha tal exorbitância. E por causa disto, não haverá ninguém capacitado a resgatá-la.


fev 28 2011

Falcoaria

Como escudeiro, aprendi certa vez as técnicas da falcoaria. A arte consiste em adestrar aves de rapina, strigiformes e falconiformes. E, apesar de meu expertise teórico, nunca me sai bem na prática desta arte. Na verdade sou péssimo nela.

Tamanho o contentamento que percebo nos pássaros ao alçar vôo, que eu não consigo mantê-los em suas correias. A ânsia pela liberdade me atinge de modo empático, e me vi compartilhando do sonho deles. Por duas vezes, em duas diferentes tentativas, rompi-lhe os grilhões.

Mas ao libertá-los, desnudei a eles toda uma série de novas possibilidades. Seus olhares acurados alcançaram horizontes mais lívidos, suas asas impulsionadas pelos ventos alísios elevaram-se junto às nuvens. E então, foram tomados pelo desejo de ir além.

Me sinto ainda hoje orgulhoso de seus feitos, na caça e no vôo. E apesar disso infeliz, pois não retornaram a mim. Tornando óbvio que não conquistei deles a mesma empatia que desprendi.


jan 28 2011

Sobre a necessidade da Guerra

O clamor da guerra surge no reino vizinho, na forma de colunas de fumaça e gritos de desespero.
Visto novamente malha e placas. Calço as botas, cubro-me com minha capa e selo meu cavalo.
Abro os portões e cavalgo para o oeste sob as chamas frias da manhã.
Avanço com aço em punho, deixando para trás toda cautela e bom senso.
Pois a batalha ferve em meu sangue, e é tudo o que preciso…

Meu anseio pela batalha é difícil de exprimir. Cinco linhas, poucos versos não são suficientes para absorver todo o rancor que é destilado em meu ser.


jan 26 2011

O Baluarte

Decidi-me por um novo bastião em minha já austera fortaleza. É certo que há muitas eras ela não experimenta incrementos ou fortificações e as muralhas gastas sofrem o peso das inúmeras batalhas que presenciou. Na face oeste, onde uma terrível cicatriz cobria-lhe de alto abaixo projetei a obra: unificar as muralhas noroeste e oeste por um único e rijo baluarte.

Despi-me primeiro da malha e as placas gastas nos ombros e braços. Em seguida calcei as luvas de construtor e uma longa manta para me proteger do frio noturno e, munido de um carro e pá fui atrás de novas pedras que pudessem compor meu baluarte. Encontrei-as poucas na vastidão, muitas grandes demais para que eu pudesse cortar ou mover. Não tive escolha a não ser recorrer a meus pais.

Tomei-lhes o mausoléu e derrubei. Pedra a pedra carreguei-o aos meus domínios. O carro suportou o flagelo com dificuldade, mas findou-me o trabalho meses depois, com eixos tortos e rodas partidas. Somente então removi as grades farpadas e pontas-de-lança que deixei a proteger a cicatriz. Começara então a edificação de meu projeto.

Fundei alicerces em madeira e pavimentei o espaço entre eles com as lages mais finas e seguras. Em seguida erigi a muralha externa, pedra acima de pedra. As maiores encontravam seus lugares abaixo e outras encaixavam-lhes por sobre, sobrando o mínimo de espaço entre elas. Seriam ainda calçadas por rochas menores e outros alicerces em madeira. Trabalhei durante as manhãs e noites, onde o clima era mais ameno, ainda coberto pela longa manta como a  ocultar-me do olhar reprovador das miríades celestes. Tomou-me outros meses. E o mesmo para a muralha interna.

Por fim, misturei a cal, pedras moídas e terra para fazer uma argamassa que pudesse resistir ao tempo. Adicionei cola de gordura de boi para unir melhor. Junto a isso uma infinidade de pedras pequenas extraídas das ruínas da fortaleza, pedaços de grades e espadas quebradas de batalhas passada e os ossos de meus antepassados.

É possível perceber as feições de uma pessoa em seus restos, é o que dizem. Mas olhando para os crânios vazios de minha mãe e meu pai antes de mergulha-lhos na massa eu não vi seus olhares atentos e as feições de reprovação, nem mesmo sorriso despretensioso e frequente dela. Apenas quem sabe, de um modo sutil, a altivez de meu pai. Não havia notado, até o momento, como ao aproximar-me de minha mãe me tornara parecido com ele.

Seu crânio afundou lentamente na mistura, empurrado e fraturado pela lâmina da pá. Por fim a massa preencheu e acentou o interior da muralha dupla. E finalmente concluído, meu recente baluarte de pedras cinzentas, lâminas partidas, pó e cinzas, ossos e ruínas.

Então reinei sobre meus pais, amparado e protegido por eles como nunca outrora.


mar 23 2009

Um Bárbaro entre Cavaleiros

Só porque eu encontrei esta imagem perdida por aí. Outras em: http://www.flickr.com/photos/academia_scam/sets/


abr 13 2007

Braveheart

William: Sons of Scotland! I am William Wallace.
Soldier 2: William Wallace is seven feet tall!
William: Yes, I’ve heard. Kills men by the hundreds. And if HE were here, he’d consume the English with fireballs from his eyes, and bolts of lightning from his arse.
[Scottish army laughs]

William: I AM William Wallace! And I see a whole army of my country men, here, in defiance of tyranny. You’ve come to fight as free men, and free men you are. What will you do without freedom? Will you fight?
Soldier 1: Against that? No, we’ll run, and we’ll live.
William: Aye, fight and you may die, run, and you’ll live… at least a while. And dying in your beds, many years from now, would you be willin’ to trade ALL the days, from this day to that, for one chance, just one chance, to come back here and tell our enemies that they may take our lives, but they’ll never take… OUR FREEDOM!

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