Decidi-me por um novo bastião em minha já austera fortaleza. É certo que há muitas eras ela não experimenta incrementos ou fortificações e as muralhas gastas sofrem o peso das inúmeras batalhas que presenciou. Na face oeste, onde uma terrível cicatriz cobria-lhe de alto abaixo projetei a obra: unificar as muralhas noroeste e oeste por um único e rijo baluarte.
Despi-me primeiro da malha e as placas gastas nos ombros e braços. Em seguida calcei as luvas de construtor e uma longa manta para me proteger do frio noturno e, munido de um carro e pá fui atrás de novas pedras que pudessem compor meu baluarte. Encontrei-as poucas na vastidão, muitas grandes demais para que eu pudesse cortar ou mover. Não tive escolha a não ser recorrer a meus pais.
Tomei-lhes o mausoléu e derrubei. Pedra a pedra carreguei-o aos meus domínios. O carro suportou o flagelo com dificuldade, mas findou-me o trabalho meses depois, com eixos tortos e rodas partidas. Somente então removi as grades farpadas e pontas-de-lança que deixei a proteger a cicatriz. Começara então a edificação de meu projeto.
Fundei alicerces em madeira e pavimentei o espaço entre eles com as lages mais finas e seguras. Em seguida erigi a muralha externa, pedra acima de pedra. As maiores encontravam seus lugares abaixo e outras encaixavam-lhes por sobre, sobrando o mínimo de espaço entre elas. Seriam ainda calçadas por rochas menores e outros alicerces em madeira. Trabalhei durante as manhãs e noites, onde o clima era mais ameno, ainda coberto pela longa manta como a ocultar-me do olhar reprovador das miríades celestes. Tomou-me outros meses. E o mesmo para a muralha interna.
Por fim, misturei a cal, pedras moídas e terra para fazer uma argamassa que pudesse resistir ao tempo. Adicionei cola de gordura de boi para unir melhor. Junto a isso uma infinidade de pedras pequenas extraídas das ruínas da fortaleza, pedaços de grades e espadas quebradas de batalhas passada e os ossos de meus antepassados.
É possível perceber as feições de uma pessoa em seus restos, é o que dizem. Mas olhando para os crânios vazios de minha mãe e meu pai antes de mergulha-lhos na massa eu não vi seus olhares atentos e as feições de reprovação, nem mesmo sorriso despretensioso e frequente dela. Apenas quem sabe, de um modo sutil, a altivez de meu pai. Não havia notado, até o momento, como ao aproximar-me de minha mãe me tornara parecido com ele.
Seu crânio afundou lentamente na mistura, empurrado e fraturado pela lâmina da pá. Por fim a massa preencheu e acentou o interior da muralha dupla. E finalmente concluído, meu recente baluarte de pedras cinzentas, lâminas partidas, pó e cinzas, ossos e ruínas.
Então reinei sobre meus pais, amparado e protegido por eles como nunca outrora.