abr 10 2006

Troll

Adentrava, trôpego, o pequeno vilarejo ao sul do bosque. Vinha encurvado, com os ombros baixos e os longos braços estendidos a frente, o cabelo que caía-lhe sobre o rosto escondia duas contas verdes no qual brilhava, refulgia intensa indignação.
Era temido, ás vezes odiado, pelos cidadãos. Todos sabiam que carregava dentro dele o mal e o ódio, ocultos numa pequena glândula negra na nuca, ou nas várias pústulas vermelhas que cobriam seu corpo. Todos o sabiam, pois demonstrava em seus dentes saltados, nas rugas sob o nariz e nas mãos crispadas; sinais do ódio.
Alguns ainda o protegiam, o diziam bom, mas a maior parte sabia, sem saber exatamente por que; ele era um monstro. Cria de um troll ou fomor maldito, nascido do ódio e do rancor

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jan 27 2006

Monstro

Eu sou um monstro – um ogro, um troll talvez – e o lugar de monstros não é junto de princesas, e nem adianta citar o Shrek! Eu me sinto sozinho e perdido sem ela, mas não posso deixar de compreendê-la.

Os monstros não podem escolher ser heróis. Pelos resto dos meus dias eu serei um monstro tolerado; grande, feio e desajeitado… sozinho na minha caverna fria…

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nov 29 2005

Fenris

Estendeu para mim sua mão, calejada do trabalho, uma mão nobre, de um homem correto, integro, honrado. E eu a agarrei, porque precisava de ajuda para me erguer e galgar as escarpas rumo a superfície, o que era difícil e penoso. A mão amiga era tudo que eu tinha.

Agarrado com força eu a machuquei, senti o gosto do sangue descendo por entre as presas, era quente, suave e amargo. E ele sentiu a dor por aproximar-se a um monstro imundo e cruel. Assim eu era.

Assim que meus olhos avistaram os campos a volta senti o peso da confiança nos grilhões frios que me ataram ao pescoço. Numa corrente em aço enegrecido me prenderam, a uma grande rocha me ataram; de modo a vislumbrar toda a beleza da vida ao meu redor, tendo somente a rocha árida por lar.

E eu era assim, um monstro imundo e cruel, um Fenris agrilhoado…

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jul 25 2005

O Monstro

– Crônicas de Ethrü

Lá debaixo daquele monte, nas cavernas que se extendem pelas entranhas da terra vive um monstro. Eu o vi certa vez, então vocês podem acreditar. Ele era alto, e naquela época isso queria dizer muito mais alto do que eu. Não havia homem que pudesse medir forças com ele; não em seu próprio território.

Eu o encontrei lá, no fundo de uma das cavernas, sentado e com a face enterrada nas mãos. Era magro e possuía as pernas compridas, a pele áspera era marrom e os cabelos lhe caíam compridos e desgrenhados por sobre os ombos. Mas foi sua face o que mais me aterrorizou: possuía uma testa larga e comprida, o nariz grande e torto, e os grandes olhos verdes que faiscavam na escuridão.

Ele se ergueu num salto e correu atrás de mim; mas naquela época eu era pequeno e ágil e ganhei a superfície antes dele. Mal sabia e que ele correria ainda mais rápido fora da opressão das cavernas. Eu podia sentí-lo em meus calcanhares, seu hálito horrível sobre mim; mas então desapareceu.

Ainda hoje não encontro explicações para o fato, mas sobre a colina lancei um último olhar para os montes e pude vê-lo, de pé sobre uma rocha, me fitando solitário

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mar 14 2005

Dia de Fúria?

Uma mancha negra caminhando sob a chuva na noite de domingo. Os cabelos escorriam por sobre o óculos embaçado e de suas roupas, pouco ainda não se havia encharcado. Seus olhos eram voltados ao solo, e ele observava por sobre as lentes; os dentes cerrados, pensando.
Havia mágoa e ressentimeno agrilhonados ao seu peito, e responsabilidade içada por sobre seus ombros. Ele questiona a si mesmo o porquê. Porque tudo aquilo que queria sob sua guarda era levado prar longe de si; porque não conseguia ser o desejavam dele.
Quisera ser o amigo, e por muito tempo foi dos melhores; quisera ser o cavaleiro, e por isto sempre lutara; quisera ser um anjo, e sua asa lhe fora tomada. Muito ele quisera, e outrora pouco conseguira. E agora se questiona se novamente a roda do destino não lhe joga ao início; lá onde somente haviam cinzas daquilo tudo que ele tocara.
Dentro dele um monstro uivava de dor e revolta, querendo romper os grilhões que o mantinham aprisionado e por pouco ele não o fez. Pois ele sabia que para conter a fúria do monstro, somente sua carne seria alimento. E mais uma vez as presas do monstro deixaram marcas profundas em sua alma.
Mas, no peito da mancha negra sob a chuva surgiu um ponto verde singelo e sem brilho; mas era um ponto verde…

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jan 13 2005

Sobre o Lobo Acorrentado e sua Dama no Bosque

– outro conto de Ethrü

A noite encobriu o arvoredo, transformando os troncos próximos em meros rascunhos ocultos nas sombras. Tuulikki caminha descalça sobre a relva, temendo por seus próprios passos, mas resoluta de seu destino.
Ao alcançar um pequena clareira ela detém-se, buscando no céu o prateado crescente da lua e o brilho lacrimoso das estrelas. Respira profundamente, tragando o frio do ar noturno. E então ela ouve um pequeno ruído.
Era metálico, como que uma corrente correndo sobre a relva. Ouve também um tossir solitário, gutural e aterrador que provoca-lhe arrepios. A mata sob seus pés está gelada e úmida e isto contribuí para a tensão que corre-lhe o corpo, eriçando-lhe os pequenos pêlos sobre os braços nus.
Tuulikki busca em volta pelo autor do ruído e distingue, no lado mais longínquo da clareira, sob a sombra de uma grande árvore, dois pontos vermelhos a fitá-la.
Durante a noite os lobos tinham olhos vermelhos, diziam os antigos, e ela sabia ser verdade; pois no norte haviam muitos lobos, e eles se reuniam a volta dos casebres durante o anoitecer.
Ela quis correr, mas seus olhos não puderam desviar-se. Por algum tempo permaneceu parada, até que a sombra latiu. Uma, duas, três vezes. Aproximou-se timidamente a passos curtos enquanto a corrente corria de lado a outro, acompanhando o movimento do lobo.
E era mesmo um lobo, um grande lobo de pêlo cinzento, grosso e comprido. A bocarra aberta arfava, e ele parecia rugir, embora de modo sufocado. Em seu pescoço uma grande argola de ferro engatada a qual estava uma corrente, mais grossa do que o polegar da moça.
O pescoço do monstro parecia machucado pela argola e ele sentia-se incomodado por isto. Ao seu redor, um odor fétido, assim como restos de ossos e grossas camadas de terra pisoteada.
Estendeu a mão para ele e tocou os pêlos em sua fronte. Rapidamente ele se moveu e ela recuou a mão um pouco. Mas não houve dor ou sangue, somente o toque úmido do focinho do animal e seu hálito quente na noite fria. Encarou-a com olhos duvidosos, embora isto não amenizasse o terror que inspirava.
A garota enlaçou o focinho do monstro em seus braços e, sentando sobre suas próprias pernas, deitou a cabeça dele sobre o colo. Ao esbarrar contra a argola enferrujada, avistou nela pequeninas letras que formavam o nome “Ulfask”. Só o notou porque a argola gemeu e trincou a seu primeiro toque.
Ao segundo toque a argola se partiu de todo, caindo sobre a relva e colo de Tuulikki. A fera que outrora atormentara três reinos estava novamente a solta…

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