Sinal e Ruído 3

Nos meus mundos as pessoas morriam.
Eu achava isso honesto,
Achava que estava sendo honesto.
Achava que estava dizendo a verdade.
Achava que…
Eles eram atores.
E fingiam estar mortos.
- Sinal e Ruído, Neil Gaiman e Dave McKean

Nos meus mundos as pessoas morriam.
Eu achava isso honesto,
Achava que estava sendo honesto.
Achava que estava dizendo a verdade.
Achava que…
Eles eram atores.
E fingiam estar mortos.
- Sinal e Ruído, Neil Gaiman e Dave McKean
A mortalidade é algo difícil de encarar.
“Aquilo que não nos mata nos fortalece.” Pode até ser. Mas o que nos mata nos mata, e isso é dureza…
- Sinal e Ruído, Neil Gaiman e Dave McKean
As pessoas costumam pensar na morte como algo absoluto, imutável e derradeiro. Recentemente tenho ponderado muito sobre o assunto, lendo conceitos de outros autores e revendo os meus próprios conceitos.
Concluí que a morte é relativa - e bem relativa, diga-se afinal.

- Vocês falam sobre os vivos e sobre os mortos como se fossem duas categorias mutuamente excludentes. Como se um rio não pudesse ser também uma estrada, ou como se uma música não pudesse ser uma cor.
Sr. Ibis, em Deuses Americanos, de Neil Gaiman

Está sempre por perto, mas nunca me visita.
Se me encontra na rua não me cumprimenta,
desvia o olhar, sequer sorri.
Curiosa ronda nossos amigos, ás vezes,
visita suas casas e lá fala de mim, espero,
mas nenhum recado me entregaram.
Certa vez, por mensagens instântaneas
combinamos um café que nunca bebemos,
conversas sobre um futuro que não realizamos.
Me prolongo nas ruas em que passa,
saio mais cedo, permaneço até mais tarde,
mas me foge para um outro lugar.
Há uma semana espero a visita que não chega,
ansiedade que me corrói como úlcera, a espera,
da chegada de minha amada Morte.
Estou morrendo.
A cada dia, a cada sopro de ar que aspiro, mais me aproximo do final de minha vida. Pois que nascemos com um número finito de alentos, e cada uma de minhas inspirações conduz a luz do sol que é minha vida rumo ao inevitável crepúsculo.
(…)
Pegou o carro, o mustang velho de guerra com a lataria carcomida pela ferrugem e uma única calota restante. Acelerou; tanto quanto podia. Poeira e pequenas pedras do asfalto voavam para trás, para o passado. Á frente somente o negro do asfalto, o vermelho do deserto e o horizonte azulado.
Chegaria a tempo? Chegaria inteiro? Chegaria..?
Seu jogo favorito era lutar contra o tempo, contra as expectativas contrárias. Mas perdia. Sabia que lutava, perdia, e gostava. Um clube da luta, que nada, tornou-se membro exclusivo de um clube para os caídos. Mas agora, caindo ao horizonte só havia uma direção a tomar.
Para frente, para o horizonte. Para ela?
Conforme o sol descia ao horizonte e o azul se tornava negro, viu as lágrimas dela pontilhando o céu. O ponteiro do velocímetro continuava no máximo, mas o de combustível reduzia lentamente. Uma a uma apareciam em sua negra tez. Quis tocá-la, mas sua velocidade não era suficiente.
Ele nunca foi o suficiente para ela.
Manteve o pé firme no acelerador quando ela surgiu, de faróis altos e ofuscantes. Vinha do horizonte tão rapidamente que ele mal pôde abrir os braços para recebê-la. Ela o arrematou e jogou ao ar. Parecia voar, finalmente para os braços da Noite.
É junho e faz frio, finalmente o frio. Tive saudades e temi que ele não viesse outra vez, mas cumpriu o prometido.
Ano sim, ano não, me faz tirar do armário o sobretudo, minha segunda pele e sentir novamente prazer em caminhar pela noite.
A lua, meio encoberta pelas nuvens (ou seria névoa?) me observa curiosa, atenta. Sua luz argêntea não chega a tocar-me na escuridão. Pertenço a ela, creio. E ao frio, e me criaram como pai e mãe pouco zelosos, arremessando-me para o seio da vida. Dolorosa e doce vida.
Filha da escuridão também a morte. Minha irmã, minha cara-metade, anseio dos meus dias, fonte do meu desejo. Se esgueira pela noite e foge, correndo por vielas que não aquelas que freqüento. Certo dia ainda a encontro, ou me encontra, não sei ao certo.
Enquanto isso a noite avança vagarosamente, cobrindo de lágrimas brilhantes o negrume da escuridão e trazendo o toque do pai para junto de meu peito. Dedos como adagas, sopro como o hálito de um dragão; sua voz me perturba e atordoa. Pai.
Renasço do frio….
2015 parece um bom ano.
Mas para aqueles que amam a morte,
todo ano pode ser bom.