A garota que conseguir dizer isso me ganhou!

- original by Mary Poppins
Está sempre por perto, mas nunca me visita.
Se me encontra na rua não me cumprimenta,
desvia o olhar, sequer sorri.
Curiosa ronda nossos amigos, ás vezes,
visita suas casas e lá fala de mim, espero,
mas nenhum recado me entregaram.
Certa vez, por mensagens instântaneas
combinamos um café que nunca bebemos,
conversas sobre um futuro que não realizamos.
Me prolongo nas ruas em que passa,
saio mais cedo, permaneço até mais tarde,
mas me foge para um outro lugar.
Há uma semana espero a visita que não chega,
ansiedade que me corrói como úlcera, a espera,
da chegada de minha amada Morte.
Estou morrendo.
A cada dia, a cada sopro de ar que aspiro, mais me aproximo do final de minha vida. Pois que nascemos com um número finito de alentos, e cada uma de minhas inspirações conduz a luz do sol que é minha vida rumo ao inevitável crepúsculo.
(…)
Pegou o carro, o mustang velho de guerra com a lataria carcomida pela ferrugem e uma única calota restante. Acelerou; tanto quanto podia. Poeira e pequenas pedras do asfalto voavam para trás, para o passado. Á frente somente o negro do asfalto, o vermelho do deserto e o horizonte azulado.
Chegaria a tempo? Chegaria inteiro? Chegaria..?
Seu jogo favorito era lutar contra o tempo, contra as expectativas contrárias. Mas perdia. Sabia que lutava, perdia, e gostava. Um clube da luta, que nada, tornou-se membro exclusivo de um clube para os caídos. Mas agora, caindo ao horizonte só havia uma direção a tomar.
Para frente, para o horizonte. Para ela?
Conforme o sol descia ao horizonte e o azul se tornava negro, viu as lágrimas dela pontilhando o céu. O ponteiro do velocímetro continuava no máximo, mas o de combustível reduzia lentamente. Uma a uma apareciam em sua negra tez. Quis tocá-la, mas sua velocidade não era suficiente.
Ele nunca foi o suficiente para ela.
Manteve o pé firme no acelerador quando ela surgiu, de faróis altos e ofuscantes. Vinha do horizonte tão rapidamente que ele mal pôde abrir os braços para recebê-la. Ela o arrematou e jogou ao ar. Parecia voar, finalmente para os braços da Noite.
É junho e faz frio, finalmente o frio. Tive saudades e temi que ele não viesse outra vez, mas cumpriu o prometido.
Ano sim, ano não, me faz tirar do armário o sobretudo, minha segunda pele e sentir novamente prazer em caminhar pela noite.
A lua, meio encoberta pelas nuvens (ou seria névoa?) me observa curiosa, atenta. Sua luz argêntea não chega a tocar-me na escuridão. Pertenço a ela, creio. E ao frio, e me criaram como pai e mãe pouco zelosos, arremessando-me para o seio da vida. Dolorosa e doce vida.
Filha da escuridão também a morte. Minha irmã, minha cara-metade, anseio dos meus dias, fonte do meu desejo. Se esgueira pela noite e foge, correndo por vielas que não aquelas que freqüento. Certo dia ainda a encontro, ou me encontra, não sei ao certo.
Enquanto isso a noite avança vagarosamente, cobrindo de lágrimas brilhantes o negrume da escuridão e trazendo o toque do pai para junto de meu peito. Dedos como adagas, sopro como o hálito de um dragão; sua voz me perturba e atordoa. Pai.
Renasço do frio….
2015 parece um bom ano.
Mas para aqueles que amam a morte,
todo ano pode ser bom.
Evitar pensar na morte parece ser o suficiente para evitá-la. É um pensamento comum nestes tempos. Não pense, não fale Nela, valha me Deus! Até prece que ela é atraída pelo simples mencionar de seu nome. › Continue lendo
Outubro foi um mês de silêncio, que acredito agora ter findado. Houveram muitas coisas, fatos e histórias a serem contadas, mas poucas palavras para descrevê-las.
Dizem os antigos que certa vez a morte conheceu um homem por quem se apaixonou. Ele não era mais belo ou mais forte do que os outros, mas tinha algo nos olhos que cativou a sinistra donzela. Casaram-se então, ou viveram juntos talvez e foram felizes.
Mas com o tempo, como a maior parte dos relacionamentos, surgiram as mágoas e as injustiças e cada vez mais a Morte sentia-se só. Seu amado já não tinha por ela a mesma paixão, já não lhe dedicava os mesmos beijos, as antigas carícias.
A Morte chorou e chorou… e certo dia se foi. Juntou os poucos pertences que lhe eram caros e deixou o lar enquanto seu esposo estava fora. E ela nunca mais o procurou. E dizem que ele permanece sozinho em sua casa até os dias de hoje, esperando que a Morte volte