jul 13 2014

Última noite em Paris

Uma última noite antes do amanhecer. Paris é muito mais singela no inverno, mas em Julho o luar me lembra você. Caminho pelas ruas desertas, atravesso sarjetas cobertas de bitucas, tubulações esfumaçadas na noite de verão estrelado.

Não vejo você. Há mais de uma semana que você se foi e isto não me parece mais errado. Ainda uso o mesmo sobretudo e tenho no bolso o recibo da loja de flores. Mas não há mais o perfume das rosas ou o seu. Só a fumaça de uma Paris madrugando.

Apesar disto, ainda sinto a dor. A sua. Antes das luzes do amanhecer o silêncio impera, e nele eu percebo porque a minha não permaneceu. Partiu com você. Como se tivéssemos trocado de malas e fossemos destinados a carregar as mágoas do outro.

Ainda narro meus passos e meus pensamentos como se registrando, num diário, numa fita, uma cena de filme noir de baixa qualidade. Vejo a nós dois como personagens de um drama, de uma trama européia com aqueles finais indefinidos.

Meu vôo é em algumas horas, e eu ainda vago sem rumo. Meus últimos momentos em Paris, sob um céu estrelado e uma lua parcialmente encoberta. Noutra noite de Julho que não a nossa.


nov 6 2012

As que pedi ontem…

Estranho quando ela me chama de “meu gato“,
com um sorriso singelo me clama para si
e no decorrer de um beijo demorado
me torna parte de sua vida.

Eu, que outrora a reneguei(?)
me percebo desejando sorver dela a alegria
de um encontro noturno, camisas brancas
e outro beijo furtado.


jun 29 2012

Pequeno verso

Acho que morro um pouco a cada dia,
e talvez durante a noite ressuscite;
Restaurado pela noite, pelo frio e pela lua
que teimam em não me deixar.


fev 4 2011

Ó Noite

Quem dera ó noite você aqui,
Quem dera a noite você prá mim.
O sol nunca mais o céu raiar,
em dourado não mais traçar.

Quem dera ó lua teu toque frio,
encontrar-me sobre a mesa ébrio
a sorver da mágoa lentamente
o sangue, tão amargo aguardente.

Rasga-me a garganta, de afasia,
furta-me os versos, minha poesia
e deixa-me a cair.

Para o seio cálido da noite
onde enfim me faço amante
até a aurora surgir.


jul 9 2009

I’m losing

inspirado em Cardigans’ – My Favorite Game

Pegou o carro, o mustang velho de guerra com a lataria carcomida pela ferrugem e uma única calota restante. Acelerou; tanto quanto podia. Poeira e pequenas pedras do asfalto voavam para trás, para o passado. Á frente somente o negro do asfalto, o vermelho do deserto e o horizonte azulado.

Chegaria a tempo? Chegaria inteiro? Chegaria..?

Seu jogo favorito era lutar contra o tempo, contra as expectativas contrárias. Mas perdia. Sabia que lutava, perdia, e gostava. Um clube da luta, que nada, tornou-se membro exclusivo de um clube para os caídos. Mas agora, caindo ao horizonte só havia uma direção a tomar.

Para frente, para o horizonte. Para ela?

Conforme o sol descia ao horizonte e o azul se tornava negro, viu as lágrimas dela pontilhando o céu. O ponteiro do velocímetro continuava no máximo, mas o de combustível reduzia lentamente. Uma a uma apareciam em sua negra tez. Quis tocá-la, mas sua velocidade não era suficiente.

Ele nunca foi o suficiente para ela.

Manteve o pé firme no acelerador quando ela surgiu, de faróis altos e ofuscantes. Vinha do horizonte tão rapidamente que ele mal pôde abrir os braços para recebê-la. Ela o arrematou e jogou ao ar. Parecia voar, finalmente para os braços da Noite.