jul 24 2008

Os Velhos Boêmios

Eu costumava freqüentar um pub enquanto boêmio. Coisa de poeta – dizia. Era um ambiente soturno e úmido sob um teto esburacado onde jogávamos cartas e atirávamos dardos. E bebíamos, é claro, como bebíamos.

Eu sentava sempre na mesa do lado do Fernando e do Edgar e, por maiores que fossem suas diferenças, sempre tinham um assunto para discutir em inglês; e George, contrariado, bebia vinho numa taça mórbida de crânio humano. Éramos um grupo distinto, você deve saber.

John e o irlandês nos contavam coisas sobre as fadas, e os irmãos Jacob e William quase sempre discordavam. Havia um novato sempre de olho, um americano louco que dizia ver deuses e profetas. Augusto jogava dados com um tal de Destino, que era companhia constante do americano.

E tantos outros passavam a noite naquelas mesas, rabiscando fantasias em guardanapos de papel ou delirando com o fundo do copo de uma strong ale ou, no meu caso, uma lager.

Eu dividia minha mesa com outros desconhecidos que como eu compartilhavam os petiscos (e os delírios) dos veteranos. Bebíamos da mesma fonte. Coisas de poeta.


Estive doente, pneumonia disseram, talvez tuberculose. Mas melhorei, ou algo próximo disto. O pub também esteve fechado, o proprietário ausente ao que parece.

E quando voltei nada era mais como antigamente. As mesas pequenas receberam cadeiras plásticas e coloridas, com apoios arredondados para não machucar as cabeçinhas dos infantes. Os quadros de dardos foram substituídos por pôsteres publicitários com splashes e números grandes.

A cerveja foi substituída por shakes de chocolate e baunilha, cobertos por um malte não-escocês e nos tentaram empurrar pequenos complementos alimentares enclausurados em caixinhas de isopor.

O que mais me faz falta são os velhos boêmios. A maioria se foi, para outros pubs neste lado ou além, mas alguns poucos permanecem, tentando se adequar a nova geração, de cabelos cobertos por brilhantina, tênis e calças listradas.

E eu, acho que perdi meu lugar na mesa ao lado do Fernando e do Edgar.


mar 12 2004

Últimos Pedaços

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Poemas de Alberto Caeiro

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mar 11 2004

Mais e mais pedaços

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

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mar 9 2004

Ainda Pedaços

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
– Autopsicografia, Pessoa

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mar 8 2004

Pedaços de Pessoa

Já sobre a fronte vã se me acinzenta
    O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
    Traíras-me comigo.

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mar 5 2004

Pedaços de Pessoa

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais do que os pensamento…

aprendi muito com isto, salve o Caeiro

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mar 4 2004

Pedaços de Pessoa

pequenos trechinhos que vou publicar durante alguns dias

Minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
[retirado de Apontamento, Pessoa]

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ago 12 2003

Rebanhos de Caeiro

Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse

Orpheu surpreendeu, bem mais que a peça argentina. Fernando Pessoa era um louco e tanto.
O Menino do Dedo Verde eu já havia visto, mas repeti para acompanhar o pessoal. É sempre muito engraçado.

Conheci uma garota demais, totalmente meiga e nem um pouquinho tímida. Ela gosta de declamar, vejam só.
Corri para casa com os olhos voltados para o alto… as estrelas roddopiavam em minha frente mas a lua me instigava, acordando o lobo em mim… ele quer arrebentar as correntes e fugir, talvez se vingar. E eu não posso fazer muito para impedir.

A noite trouxe o frio, e o frio veio trazer prazer, e o prazer é doloroso, impulsiona o sangue, que me desperta a fúria, a fúria ao ver a lua alta contra o céu estrelado, estrelas que vieram com a noite. A noite trouxe o frio…

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