fev 24 2016

Martha Jones

Martha Jones, interpretada por Freema Agyeman

Eu que outrora tive um estranho sentimento desperto por uma jurista, sou agora assaltado pelo o vigor e perspicácia refletido nos gestos de uma aspirante a residência hospitalar.

Lá estão os mesmos lábios delgados a sugerir o sorriso franco, o olhar crítico e curioso de sobrancelhas devidamente arqueadas; mas em vez dos cachos, os cabelos lhe caem soltos a emoldurar a face; todas as características a me recordar outra (ou a mesma) beleza ímpar.

Referência direta a Alesha Phillips (que encontrei a cinco anos atrás)


nov 30 2011

O olhar da Imperatriz

"The Empress" by Stephanie Pui-Mun Law

Virou a Imperatriz sobre a mesa,
nesta esquina,
ela que dentre os arcanos a mais bela,
mais altiva,
de fina cintura e sorriso largo,
sedutora.

Ilustrada com um cortejo de pajens,
em flores coroada,
sua presença austera e marcial,
capuleto,
livrou-me de meu torpor matinal,
sobressalto.

E a figura de papel sobre a mesa ganha vida,
reconhecera-me,
e dentro de sua carruagem acenou-me,
simpatia,
premiando-me ao relembrar em seu olhar
d’uma princesa.


out 3 2011

É chamada intuição,…

… ou empatia, e dentre minhas habilidades é das mais superestimada. Há um aspecto dela pouco notável, aquele que me faz perceber as palavras não ditas, secretamente desejadas.
– Não é bom nos vermos hoje…

O pior é que, tendo consciência destas e faltando a coragem ou a sinceridade em expressá-las, acabo por eu mesmo narrar, por desferir o golpe que me fere.
– Você não voltará mais…

Parece-me que ela – minha intuição – somente se manifesta quando sou desprezado (fato não tão raro) e as coisas parecem embaraçosas demais para que o meu trato social possa lidar.
– Eu sei, existe outra pessoa…

Apesar disto, transformo as palavras duras numa brincadeira sem sentido e termino dizendo que tudo permanece bem. Mas ao virar as costas, são meus olhos a encontrar do chão as lajotas.
– É, eu acho que acabou.


jun 25 2011

Elas são a Cura

Algumas das garotas que passaram pela minha vida, como amigas, cúmplices ou amores, citadas nas músicas do the Cure que me fazem lembrar cada qual:

Flávia (Just Like Heaven):
Strange as angels dancing in the deepest oceans
Twisting in the water, you’re just like a dream

Juliete (Pictures of You):
Remembering you standing quiet in the rain
As I ran to your heart to be near
And we kissed as the sky fell in, holding you close

Marina (Cut Here):
It’s so hard to think “It ends sometime and this could be the last …”
Because it’s hard to think “I’ll never get another chance To hold you…
to hold you… “

Ofélia (Charlotte Sometimes):
night after night she lay alone in bed her eyes so open to the dark
the streets all looked so strange they seemed so far away
but charlotte did not cry

Sarah (Why Can´t I Be You?):
You’re so wonderful, too good to be true
You make me, make me hungry for you


jun 15 2011

Recordações

A campainha tocou logo cedo. Ainda de pantufas e com a escova de dentes na mão corri até a porta, mas não havia ninguém no corredor. Ouvi uma risadinha marota e me voltei para as escadas, mas somente um vulto escuro passou pelos meus olhos.

Mas diante da porta havia uma pequena cesta de vime coberta por papel de seda. Ergui cuidadosamente e fechando a porta com o pé, levei-a até a mesa da cozinha. Sob a cobertura de papel haviam dezenas de lembranças, congeladas em papel brilhante.

Algumas eram alegres e amareladas, laranjas ou vermelhas, mas também haviam aquelas verdes e as azuis… ah, as azuis… grandes panoramas celestes que continham o brilho dos nossos olhos. Haviam as velhas lembranças em sépia, e os dias melancólicos impressos em preto e branco, nebulosos e desfocados. Fotografias de tudo quanto é tipo e gênero.

Eram figuras de tempos que eu nem lembrava mais, de pessoas que mal recordava e que nunca imaginei haverem sido fotografadas.

Uma velha imagem de meu pai e mãe comigo ao ventre, e outra de meus irmãos rolando sobre a relva do sítio de meu tio-avô. Uma fotografia do Cristiano nos tempos de primário, e as velhas rachaduras do meu quarto. Havia uma da noite estrelada vista de sob a cortina e uma das primeiras imagens do meu cachorro. Figuras dos meus canários, do meu primeiro amor não correspondido, das quedas e dos passeios de bicicleta, dos almoços de família e da pose de coralista com gorro de natal.

Tantas e tantas recordações… e dentre as últimas, uma foto sua. Agarradinha ao meu braço, sorrindo com aqueles imensos olhos brilhando da maneira que você disse que somente eu sabia fazer. Senti saudades e vi seu recado colado junto a geladeira, dizendo que traria pizza e sprite para o jantar.


Publicado inicialmente em algum momento de 2004.
Omiti aqui o último parágrafo, pois este trata-se hoje de um rumo diverso a esta realidade…


abr 24 2011

Alesha Phillips

Alesha Phillips, interpretada por Freema Agyeman

Normalmente não me interesso por juristas, sejam defensores ou contraditórios, mas o jeito com que ela atua, seu vigor e a contenda me despertaram um sentimento singular.

Claro, une-se a isso lábios delgados a demonstrar contrariada rebeldia ou o sorriso franco, o olhar questionador de sobrancelhas devidamente arqueadas e os cachos a emoldurar-lhe a tez; características que me recordam outra beleza ímpar.


fev 17 2011

Lembro-me hoje…

Lembro hoje do teu sorriso, aquele incontido e pleno de satisfação quando fazia algo para supreender-te. Lembro, também hoje, o toque da tua camiseta quando me abraçava, os teus braços a volta do meu pescoço, o cheiro que emanava suave do teu pescoço. Lembro hoje que desejavámos não ter fim algo que durante tão pouco tornou-se eterno.

Guardo as lembranças em um baú a minha cabeceira, onde posso ver-te todos os dias; em olhos que não os teus, em vozes que não a tua. Egoísta, por querer hoje partilhar duma alegria, dum momento que não mais a nós pertence. Ao contrário, a um passado que perfeito em seu baú está.


fev 17 2011

das Gavinhas

Lembro das gavinhas,
sombrias filiformas
que escorriam de seus cabelos
e germinavam nos seus olhos.


fev 10 2011

Promessas & Juramentos

Inevitavelmente tentamos controlar nosso destino, criar fundamentos sólidos para nossos objetivos, relacionamentos e os sentimentos sobre nossa posse. E almejando o sucesso destes, empenhamos nossa palavra.

Quando a entropia finalmente nos alcança, e torna nossos feitos em ruínas, somente as promessas sobrevivem. São contratos perpétuos sobre as pedras que agora jazem ao chão e nunca mais se erguerão. As juras transformam-se em fantasmas a nos apontar os dedos gélidos em acusações cruéis.

Pior! Esses espectros nos cobram a responsabilidade de outros quanto a nossos próprios sentimentos. E quanto à ruína, exigem compensação, justiça ou vingança. E frente a essa ilusória sensação de injustiça, tornamo-nos egoístas e rancorosos.

Minha palavra é impregnada de minha honra e da minha vontade. Não gosto de promessas ou juramentos, pois cada palavra que sai de minha boca já é, por si, testemunho da verdade que habita em mim.

No entanto enfrento hoje os espectros de minha própria ruína.

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fev 4 2011

Visitas Reais

Sonhei com a rainha. Ela conversava comigo e embora eu não possa lembrar as palavras havia reconciliação em seu olhar.

E durante a manhã fui visitado pelo rei. Seu olhar permanece reprovador e eu acredito que ainda me condene ao imaginar que eu ousei tomar seu trono.

Permanece também de porte altivo, austero e confiante. Mas eu vislumbro o peso que cai sobre seus ombros.
Há poucos dias percebi que mantém encontros secretos junto ao portão de seu palácio, onde a solidão vem ter consigo.

Eu o invejo, mesmo que a Suavidade tenha partido para longe e a Inocência lhe traga angústias e preocupações.