abr 1 2016

Flores de Plástico

Estas flores nunca irão morrer – você disse.

Somente entre você e eu – respondi – elas sempre vão morrer. Deixei as rosas se transformarem em sangue sobre a mesa e parti.

[ uma idéia extremamente curta, e um pouco inspirado por The Cure, Titãs e Ravenloft ]


maio 12 2004

Lorde Negro III: A Rainha de Vidro

Com os olhos fixos no horizonte, Johan permanecia de pé sobre a muralha semi-destruída que limitava o pátio da fortaleza. Notou então as luzes que tremulavam na estada e voltado a seus companheiros gritou:
– Estão vindo!
Sobre o calçamento destroçado um lobo adormecido ergueu a cabeça e rosnou para o alto, mas foi logo acalmado pelas mãos calejadas de seu instrutor. Ao lado dele, o cavaleiro de túnica também levantou-se, segurando seu elmo.
Conforme os cinco cavaleiros se aproximavam, a lua descobria-se de seu manto sombrio, lançando uma luz leitosa sobre o pátio, refletindo a estátua de vidro fosco sobre o pilar central. Uma estátua em tamanho natural de uma dama pequenina, envolta num manto delicado que lhe descia aos pés, segurando contra o peito uma rosa cristalina. A estátua não era translúcida, ao contrário, fosca e esbranquiçada.
O primeiro cavaleiro a adentrar o pátio somente fora notado quando sua forma sombria atravessou os portões. Tinha um manto negro encobrindo-lhe o elmo e as costas e este parecia mover-se com vida própria. Desmontou e caminhou lentamente sobre as pedras.
Uma estranha canção iniciou-se de lugar algum, com notas agudas e confortáveis, inebriava os presentes de estranha apatia. As palavras mal podiam ser ouvidas, mas as notas preenchiam o ar como que transformando a noite em dia.
Uma lágrima cristalina brotou de um dos olhos da Dama de Vidro. E neste instante, a forma fantasmagórica do Lorde Enforcado apareceu, como que conjurada em meio as névoas. Tinha os cabelos desgrenhados, a feição era contorcida em ódio, e seus olhos estavam fixos em seu objetivo: o Cavaleiro Sombrio.
Silenciosamente caminhou até ele, com a espada erguida em ambas as mãos. O cavaleiro também desembainhara a sua e o primeiro golpe a ser ouvido foi o choque do metal. Mas a lâmina do enforcado atravessara a espada do cavaleiro sombrio, indo cravar-se em sua armadura, sobre o ombro.
Talez ele houvesse sofrido com o golpe, mas dentro de seu elmo sua face era invisível e grito nenhum fora ouvido. O que se seguiu foi um duelo silencioso de espadas que desapareciam em meio as sombras que formavam do manto do cavaleiro.
Conforme as lágrimas fluíam sobre os olhos da dama, os golpes do cavaleiro sombrio se tornavam mais certeiros, e volta e meia não trespassavam o corpo etéreo do seu oponente, que gritava blasfêmias em desafio.
Em um esforço final, estocou o cavaleiro sombrio forçando sua espada a atravessar as falhas da armadura, surgindo em suas costas. Novamente não houve expressão de dor ao cavaleiro, mas sua manopla ergueu-se e segurou com firmeza o punho do oponente. Ele tentou livrar-se, mas em vão. Ergueu com força sua própria espada e num único golpe separou definitivamente a cabeça o lorde de seu corpo, que desfazia-se nas névoas.
Vitorioso, avançou a passos lentos em direção da estátua. O canto se tornava mais forte e decidido, sua voz era satisfação e júbilo e assim que a manopla do cavaleiro tocou sua mão de vidro, a capa sombria caiu ao solo, espalhando as peças de metal por sobre as pedras do pátio.
Lágrimas verteram-se dos olhos da Rainha de Vidro, que partia-se aos poucos, liberando blocos de vidro que se desfaziam-se ao chão. Restara pouco mais do que uma forma difusa com sinais de uma beleza perdida.
E nesta noite três dos senhores sombrios foram libertos das brumas dos Domínios do Terror. A não ser que os Poderes Sombrios tivessem outros planos.

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maio 4 2004

Lorde Negro II: O Cavaleiro Sombrio

A grande porta de madeira cede ao peso do soldado e se abre, arrastando-se ao chão e provocando ondas nas névoas que cobrem seu tornozelo. As placas de metal sobre as botas estalam confome ele recua.
O elfo é o primeiro a entrar no salão, a passos silenciosos. Ele força a vista para alcançar os degraus na extremidade oposta e o trono ocupado acima deles. As ruínas se estendem, largas colunas de pedra caídas a sua direita e esquerda, e os altos vitrais despedaçados sobre o chão. Parte do teto ruiu há muito tempo, espalhando entulho por toda a extensão da câmara.
A vistani se adianta, em seu longo vestido negro, quase como uma sombra sob os raios prateados que incidem do teto. Ela avança decidida, seguida por seus companheiros.
O último deles entra com um livro aberto sob os olhos e quase tropeça numa das vigas caídas. Espantado, ergue os olhos para os companheiros ajeitando os óculos.
Ouçam isto – diz – este conto descreve a saga do cavaleiro e de sua queda nos montes Balinok. Semanas após sua morte, enquanto os conflitos ainda duravam contra os barovianos, ele ergueu-se e cavalgou sozinho pela noite em busca dos seus companheiros nos campos de batalha e lutou ao lado deles mesmo ao raiar do dia.
Enquanto ele enumerava os feitos do cavaleiro sombrio, caminhava na direção ao balcão e a seu trono. Parou ao pé da escada e voltou os olhos para cima. Um arrepio percorreu sua espinha conforme vislumbrava a armadura caída sobre a pedra fria.
Era completamente coberto por placas desgastadas, e seu elmo fechado pendia sobre o próprio peito, parcialmente encoberto por uma capa negra que descia-lhe por sobre os ombros. Uma das manoplas jazia ao lado do trono, segurando inutilmente o pomo de uma espada longa. Não havia sequer um movimento em toda a câmara a não ser pela respiração dos companheiros.
Kardanon, o elfo ergueu seu arco em direção da figura sombria e aguardou. Grigori desembainhou a espada e tomou-a em posição de guarda, mas voltando-se para Litha, questionou-a:
– Precisamos realmente despertá-lo?
A garota não respondeu, mas ergueu seu olhar sombrio. Éfeso distanciou-se com o livro sob o braço enquanto a vistani retirava o pergaminho de sua algibeira.
– Talvez eu não saiba cantar como ela, mas preciso tentar.
E recitou:
“Por eras infindáveis mantivesses tua honra
e eternamente a tua palavra
mas hoje a promessa se findará
porque tua rainha clama por teus préstimos,
e seu canto a ti se eleva”

Com o término do canto, o silêncio reinou absoluto novamente, mas por somente alguns intantes. Os companheiros olharam uns para os outros, mas então a manopla se fechou no punho da espada e o elmo se ergueu. A armadura estalou, rachada pelo tempo, mas o cavaleiro sombrio caminhava novamente.

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abr 29 2004

Lorde Negro I: Kyan

Cavalgara para casa, após meses diluídos em sangue nos campos. Ele vencera, e agora corria para o conforto dos braços daqueles que amava. Esperava brados de alegria ao aproximar-se dos portões, mas sequer uma saudação foi ouvida.
Uma estranha sensação tomou-lhe o ser. Mandou pôr abaixo o portão de madeira para descobrir o pátio da fortaleza vazio e silencioso. Caído junto as escadas do torreão, um dos frades jazia imóvel. Estava pálido e de lábios arroxeados.
Correu pelo interior da fortaleza e podia ouvir os gritos de seu exército ao descobrir um serviçal ou sentinela em semelhante situação. Adentrou seu quarto, passando sobre o corpo da governanta. Uma luz suave atravessava as cortinas, ressaltando os cachos dourados de sua esposa sobre a escrivaninha. Tocou-lhe a face, gélida.
Um gemido fez-se ouvir da cama. Correu para seu filho e tomou-o. Pode ver quando seus olhos perderam o brilho e se fecharam, em seus braços. Abraçou-o com força e urrou aos céus.
Os soldados adentraram o quarto e descobriram um lorde enlouquecido. Tentaram afastá-lo da criança, mas não conseguiram. As palavras veneno e traição chegavam distorcidas a seu ouvido. Ergueu-se e ordenou que o seguissem.
Invadiu o vilarejo pela força. Exigiu que entregassem-lhe o assassino. Degolou sete primogênitos antes que este lhe revelassem. Este havia fugido, mas ele o seguiu por semanas. As tropas aos poucos desertaram até que ao fim restaram-lhe não mais do que uma dezenas de homens. Mas acharam o traidor dentre os ciganos.
Tomaram-lhe a ferros, e mesmo amaldiçoado pelas línguas pagãs, carregou-o ao calabouço. Todo o povo fugia de seu olhar, mas ele não mais importava-se. Voltou para casa, para os braços de seu filho e esposa amados.
Por semanas ainda torturou e aproveitou-se de cada grito de dor daquele que havia sido seu algoz. Prometeu, pela alma de cada criança que tomara, que seus gritos ecoariam pela eternidade.
Seus leais cavaleiros voltaram-se contra seu senhor insano, mas ele os renegou. Desonrados e traídos, avançaram sobre ele e o prenderam. Foi enforcado sobre as muralhas do castelo e na noite seguinte ele retornou.
Névoas cinzentas tomaram o reino, e o lorde pôs novamente os pés em sua terra, e vingou-se de cada um de seus paladinos, enquanto pouco a pouco seu reino sucumbia aos Domínios do Terror. Voltou para casa, para o abraço frio de sua esposa e filho.

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abr 20 2004

As Névoas…

Procuro meu caminho nas névoas, buscando os romances de Ravenloft, desejando lá encontrar portal seguro para a Vastidão Cinzenta que clama minha presença.
Ravenloft, o plano de terror, povoado e dominado pelas mais aterrorizantes atrocidades que tivera-se notícia. Monstros góticos de poderes negros, assombrados por aqueles que um dia amaram.
Porque eu admiro tanto o Plano do Terror?
Pergunte a Tatyana, que ainda hoje assombra a visão do barão Sthrad, ou pergunte a van Ritchen que teve de estacar seu próprio filho, a Lord Soth e aos cavaleiros que ele assassinou, pelos crimes que ainda hoje os perseguem, séculos depois.
A morte pode ser um alívio em Ravenloft.

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