set 4 2012

Versos a um Coveiro

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco… Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais:

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!


ago 20 2012

Como não se pode ser…

Perfaço as curvas sinuosas de teus cachos,
percorro os vales estreitos dos teus lábios
e me perco no labirinto do teu encanto
almejando o suave descampado da tua tez.

Sou ludibriado pela sedução do teu olhar,
e levado a cair nos poços de crime e condenação
onde somente meus instintos mais básicos
meio ao caos conseguem sobreviver.

Galgo sozinho o caminho de volta ao topo,
trazendo comigo o arrependimento
de uma noite inteira de vinho, dança e suor.

E quando os instintos esmorecem,
dando lugar a razão e a sinceridade
me descubro no teu labirinto novamente…

– baseado em Refrão De Bolero, Engenheiros Do Hawaii


jul 30 2012

Ela que nunca mais o procurou

Ainda vejo tua face em todos os lugares,
e por mais que procure noutros rostos
outros castanhos que não os teus,
me descubro revendo teu olhar.

Deixo minha mente vagar,
pois o caminho do pesar me atrai
e me engolfa na tua presença
de modo que a realidade não faz.

Certo de que teus pensamentos
se voltam para mim vez ou outra
e desejam ao meu colo retornar.

Te espero hoje, certo de que
se tua partida me agrilhoou,
só tua presença, tua arte
[ me  libertará…

– em nome Daquele que a Morte deixou


fev 29 2012

Desgraça

Ela cita Shakespeare como quem lê,
correntes de internet e não Sonetos…


fev 17 2009

Sobre meu túmulo

Noite passada tive um pesadelo,
onde um lobo e um corvo negro juntos
montavam guarda junto a meu túmulo
posto no alto de uma  colina fria.

Pouco além, a oeste da laje branca,
duas árvores altas cresceram entrelaçadas:
a primeira era verdejante e coberta de musgo
e a segunda, cinzenta e estéril.

Fato mais surpreendente no entanto,
a imensidão de pequenas gaiolas penduradas
que continham as mais variadas fadas e sprites.

Umas debatiam-se, outras há muito silenciaram,
sabe-se aguardando um fim ainda vindouro
ou velando uma alma outrora derrotada?