abr 29 2016

Sinceridade Mascarada

Foxglove trouxe da feira uma rama de hortelã,
também um pé de salsa, coentro, orégano
e uma dose generosa de sinceridade.

Plantou-os e regou-os com cuidado,
e conversou com eles de modo natural,
palavras que não eram proferidas há meses.

A hortelã temperamental murcha e retorna a avivar,
o coentro ás vezes parece querer desistir,
mas é a sinceridade mais difícil de cultivar.

Ela se apega, torna-se íntima e se faz necessária,
e no início da primavera troca suas folhas,
desabrochando as pétalas alvas de pena.


ago 28 2014

Barreiras

A Inocência me foi velada por lentes escuras; mas estava lá. Me observava com curiosidade, e delicada atenção. E parecia que a Suavidade escorria por entre suas ondas negras em filigranas delicadas.

Uma sombra do passado ao fundo, me observava com igual intensidade. Pouco posso lhe distinguir, mas além de curiosidade e atenção lhe sobressai uma desconfiança austera e cuidado para com os castanhos ocultos.

E na manhã que se segue, abandono a Esperança igualmente velada, ultrapasso-a a passos largos embora temerosos. Ela não me detém, mas imagino se não me observa com expectativas renovadas.

As barreiras que nos impomos nos separam, tanto aquelas físicas e negras, as distâncias geográficas, mas principalmente as vontades de nossas mentes e rigores de nossas almas.


jan 24 2014

Pálida Inocência

– Álvares de Azevedo

Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?

Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!


set 21 2013

A beautiful lie…


set 2 2013

Vítimas da Inocência

Há uma sensação difícil de explicar, na percepção da passagem de tempo. Ela me é ocasionada ao perceber que a Inocência já não é a mesma. Não que tenha perdido a graça em seu sorriso, ou a familiaridade de seu olhar. Mas de certo modo ela amadureceu. Tornou-se senhora de seu destino como outras princesas outrora.

Há uma certeza em Ivória, de que as princesas se tornam damas, que galgam seus medos e os superam. E quando você menos espera é salvo – ou destruído – por sua determinação e beleza. Isto só me fortalece a sensação, ao perceber que hoje a Inocência também destrói os corações incautos, dos bravos e destemidos.

Como também eu fui destruído um dia…


out 24 2012

Primeiro Mandamento dos Anjos Guardiões

Sê verdadeiro.
Mesmo que não te traga alegria, que exponha tua carapaça e o teu flanco aos golpes do inimigo.
Que teu sentimento nunca falhe, tua fé não esmoreça e tua luta seja eternamente apoiada nas tuas virtudes.
Faz pelo outro mais do que gostaria de ter para ti mesmo, e dedica-lhe os teus melhores esforços.
Desprende-te ao teu próximo, mesmo que isso te leve a ruína…


set 10 2012

Obsessão

Adentra os meus lábios e invade meu ser,
rasteja sob a minha pele, deixa marcas.
Toma por empréstimo minhas roupas,
e dá nomes a elas que eu não compreenderia.
Veste minhas camisas e deixa ali seu perfume,
sua presença.

Pouco a pouco a Obsessão se instala,
dividindo comigo travesseiro e cobertor.
Dilui meus pensamentos num turbilhão
roubando-me da cabeceira a consciência.
Por fim, me faz despertar em meio da madrugada
ansiando por ti.


ago 17 2012

Cavaleiro da Mancha

Prazer, sir Otário, cavaleiro da Mancha a seu dispor,
defendo as causas perdidas e sustento virtudes outrora esquecidas.

Narra-se que em minha mente uma corte feérica se afigura,
rainha, princesas, pajens e toda aquela gente galante.

Frequentadora desta casa, minha dulcíssima protegida,
a quem dedico meu serviço, altruísmo e constante devoção.

Na corte me apresento um cavaleiro de honra inquestionável,
postura rígida, queixo altivo e repleto de orgulhosos feitos.

Pois combato todas as noites os piores temores,
monstros de estatura e poder, impossíveis de se derrotar.

E pode ser que estes gigantes sejam somente moinhos de vento,
pois mascaro a realidade sob a manta da fantasia.

Mas é fato que sustento a honra, amizade e desprendimento
por amor as causas perdidas.

– baseado em Don Quixote, Engenheiros do Hawaii


jun 11 2012

Misericórdia

– Diga-me onde dói – a voz surgiu em meio a escuridão – assim eu posso alcançar a dor.

A voz era bela e uniforme, e fresca como um bálsamo. Trazia de volta as formas borradas dos soldados que passavam correndo frenéticos ao fronte.  A visão era embaçada pela noite, os fogos de guerra, e sobretudo a dor que vinha-lhe do lado.

Há poucos minutos algo atingira-o. Viera do céu, ou talvez do flanco esquerdo, e trespassou placas, cota, carne e costelas. Deixara agora uma mistura barrenta de sangue, vísceras e ferrugem. Há poucos minutos, mais pareciam uma eternidade.

Gritou por ajuda, e depois gemeu. A dor cerrou-lhe os dentes e arrancou-lhe o fôlego… Desmaiou por fim, mas voltou a despertar, chorando, lamentando o fim. O frio instalara-se no lado esquerdo, e seu braço já não movia, paralisado pela falta de sangue e o terror da morte.

Mas a irmã surgiu-lhe da escuridão, e pousando a mão sobre o peito sussurrou: – Seja forte. Diga-me onde dói. Ele ergueu as placas e mostrou a ferida. Estava lacerada e havia farpas de metal cravadas no fundo da carne.

E ela o beijou. Seus lábios pulsavam, vivos e rubros. Sua mão tocou-lhe onde doía e ele estremeceu. O corte aqueceu-se, cauterizando a carne e cuspindo fora os elos destroçados. Mas o calor trazia de volta a dormência da vida, o anseio do retorno.

E ele a sentiu estremecer, seus lábios ressecando e murchando. E conforme sua visão clareava, ela lhe parecia cada vez mais cinzenta, velha, sábia e reconfortante Misericórdia.


fev 29 2012

Desgraça

Ela cita Shakespeare como quem lê,
correntes de internet e não Sonetos…