nov 24 2016

Eu tive que deixá-la ir

Eu ainda a via no canto do meu olhar.
Me acompanhava silenciosa, cautelosamente,
me seguindo onde quer que eu fosse.
Me assombrando talvez?

Era feita de sentimentos não resolvidos,
de beijos nunca dados, traição nunca consumada,
repleta de piedade e desejos de bem-estar.
Era como estar de volta.

Quando chegava em casa ela me alcançava na porta.
E enquanto procurava as chaves no bolso,
reinava sobre nós aquele silêncio embaraçoso.
Eu tive que deixá-la ir.

A lâmina tremeu um pouco ao passar pelas costelas,
arranhou a parede ao fundo, manchando-a de carmesim
enquanto ela escorria aos meus pés.
Ainda tão silenciosa.

Arrastei-a para fora e enterrei no pátio em frente,
debaixo de uma árvore que os corvos reclamaram para si.
Revezam-se ao vigiá-la… para que não volte.
Para que encontre seu caminho para casa.


nov 8 2016

Tchau guria!

Vão ficar as saudades eternas do “oi guri”, entre tantas outras coisas. Vá em paz, Elis!


ago 5 2016

A Night Like This

Say goodbye on a night like this
If it’s the last thing we ever do…

Say hello on a day like today
Say it everytime you move…

– A Night Like This, the Cure


ago 4 2016

Cinnamon cookies

– best fika gift ever

A taste of morning, a taste of when,
something from home, other from then
[ or maybe, others from them?


maio 24 2016

Sobre um brinde solitário

Sometimes we lose what we are caring for
and then face the day without them

Sometimes we fail to say how hurt we are
When the word we fear speaks treason

– Tonight I Dance Alone, Sonata Arctica


maio 9 2016

E há tantos recortes dessa música…

Is something I cannot say
Is something I can’t explain […]

As palavras vão para o papel, ao invés de se dirigem a você. Preenchem as mesmas páginas amareladas que eu mantenho reservadas, observadas somente pelo tempo que escorre. Elas carregam as complexidades que eu não consigo expor, tão difíceis de representar pelo seu contínuo pulsar e espasmar.

Why I should (not) fall apart? […]

Partes de mim que eu preciso deitar ao chão. Ossos falsos, órgãos falidos que carregam um peso, mas pouco contribuem para a sobrevivência do organismo. A intervenção dói um pouco, mas me torna mais plano, e um pouco mais arguto.

Why I should (not) be at peace?

Pouco a pouco as partes no solo constituem um novo eu, orgânico mas não-vivo. E eu me percebo observando a mim mesmo, de fora da minha vida, de fora dos meus olhos. Silenciosamente a me assombrar…

  • baseado em Untouchable, Part 2 -Anathema

abr 29 2016

Sinceridade Mascarada

Foxglove trouxe da feira uma rama de hortelã,
também um pé de salsa, coentro, orégano
e uma dose generosa de sinceridade.

Plantou-os e regou-os com cuidado,
e conversou com eles de modo natural,
palavras que não eram proferidas há meses.

A hortelã temperamental murcha e retorna a avivar,
o coentro ás vezes parece querer desistir,
mas é a sinceridade mais difícil de cultivar.

Ela se apega, torna-se íntima e se faz necessária,
e no início da primavera troca suas folhas,
desabrochando as pétalas alvas de pena.


abr 19 2016

Desilusão

The feeling is more than I’ve ever known
I can’t believe it was just an illusion
– The Lost Song Part 2, Anathema

As paredes escorriam lentamente, liquefeitas em um tecido miócito que já não suportava a si mesmo. Através das armações expostas das doze colunas ivórias conseguia vislumbrar o céu. Três pares de colunas eram falsas e apresentavam nenhuma sustentação, outros dois flutuavam em conjunto com as paredes. Toda a fortaleza parecia vir ao chão a qualquer momento.

Lá fora a escuridão chovia, em uma precipitação negra e fria que roubara do céu a tonalidade, tornando-o pálido e opaco. As janelas fragmentadas permitiam o escorrer da sombra em estruturas filiformes por sua face. Contrastavam com a alvidez falsa da maquiagem e com o sentimento pacífico que sentia. Agonia ali não existia, ao contrário, apática satisfação.

Deitou ao relento, coberta e confortada pela noite sem cores e sem estrelas, e adormeceu. E em seu sono foi assaltada por um pesadelo que questionava sua identidade, suas certezas, seu chão. Perdida numa realidade que não a sua, repleta de caos pulsante e vibrante, temeu não poder mais retornar para casa.


abr 12 2016

Recortes do Exílio

My land has palm trees
Where the thrush sings.
The birds that sing here
Do not sing as they do there.

You want everything
Another world where the sun always shines
And the birds always sing
Always sing…

O primeiro verso vem da versão inglesa para a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias; o segundo de Where the Birds Always Sing do The Cure. Quis experimentar um mash-up.


abr 1 2016

Flores de Plástico

Estas flores nunca irão morrer – você disse.

Somente entre você e eu – respondi – elas sempre vão morrer. Deixei as rosas se transformarem em sangue sobre a mesa e parti.

[ uma idéia extremamente curta, e um pouco inspirado por The Cure, Titãs e Ravenloft ]